sexta-feira, 27 de julho de 2012

As peripécias de um país laico

Todas as áreas de atuação dos animais humanos têm seus jargões. Em alguns momentos, os jargões são motivados por uma simplificação da linguagem, afinal, tratar a "Primeira lei da termodinâmica" é cognitivamente mais suscinto que a mencionar como a "Lei universal da conservação de energia para sistemas térmico/mecânico/químico/quântico/eletromagnéticos na forma clássica"; a primeira forma vai me dizer o que você quer dizer, enquanto a segunda forma me fará perguntar "Mas heim?".

Em certos ambiantes, não conhecer o jargão dificulta consideravelmente a comunicação. Mencionar a uma vendedora de uma loja de eletrônica que eu queria "Uma câmera que faça em torno de 60 quadros por segundo em formato digital" resultou em uma sobrancelha levantada e a impressão de que ela falava se dirigindo a um retardado mental. Após uma série de explicações, fui corrigido com a frase "Ah, o nome disso é 'frêimis'. Essa câmera resolve". Excluindo o fato de que ela provavelmente se referia à terminologia "Frames per second", que é inglês para "quadros por segundo", e o fato seguinte de que a câmera que ela me indicou era analógica (formato PAL, outro jargão que indica que a câmera resolve 25 quadros por segundo), concluí que se eu conhecesse o jargão da vendedora de câmeras da rua 24 de maio teria economizado em torno de dez minutos de conversa fútil.

Mas também existe o momento em que o jargão apenas serve para te caracterizar como especialista e não se fazer entender pelos leigos. Quando eu falo na anteriormente citada "primeira lei da termodinâmica" em determinados contextos, estou esclarecendo que sei do que falo. Se em um trabalho eu menciono que "utilizei um sensor CCD" estarei sendo mais elegante que aquele que diz "utilizei uma câmera digital com sensor CCD", embora ele tenha mencionado o "digital" e tenha sido mais preciso que eu em seu vocabulário.

Algo comumente confundido com os jargões são os "chavões". O chavão linguístico nada mais é que um vício, em alguns casos tão comum que pode ser tido por slogan. Alguns consideram que nosso falecido político Enéas Ferreira Carneiro, conhecido apenas por Enéas, ao declarar "Meu nome é Enéas", não estava meramente esclarecendo seu nome àqueles que pegaram a propaganda pela metade, mas usando um chavão que o destacasse na massa de candidatos. Em discussão prévia a respeito da comunicação enquanto especialista, mencionei um chavão comum à minha área, nada específico mas bastante eficaz quando não queremos responder uma pergunta: "Não é tão simples assim".

Assim como chavões se tornam slogans, slogans se tornam chavões, e para quem gosta de exemplos temos alguns slogans bonitos que não têm mais muito efeito por algumas pequenas distorções histórias e terminaram assim, como "Ordem e progresso", "democracia", "liberdade, igualdade e fraternidade" e "mas e os direitos humanos?".

Mas há um chavão em especial que tem chamado minha atenção nos últimos tempos, utilizado em contextos questionáveis: "cada um acredita no que quer". Em momentos fui levado a discordar, afinal eu não acredito no que quero e sim naquilo de que fui convencido. Eu não quero acreditar na relatividade e sua tendência desagradável de implicar que eu não posso viajar no tempo para o passado, mas fui convencido.

Mas no contexto onde essa frase é comumente utilizada, ela é precisa. Esse é o chavão mais comum para encerrar discussões religiosas que existe, e é o mais eficaz. Na dúvida, na falta de argumentos, quando os ânimos começam a se acalorar, apelamos para a liberdade religiosa, que poderia ser traduzida como "A constituição me garante liberdade religiosa", mas já tem o chavão "Cada um acredita no que quer", que é muito mais elegante que dizer "você vai para o inferno por pensar assim" e, posto sob o ponto de vista adequado, pode implicar em tratar uma opinião como "liberdade de expressão" e a outra como "ofensa". E é fato, o religioso acredita no que quer, afinal, escolher "um deus ou outro", "uma tradução ou outra" ou "um livro sagrado com verdades subjetivas interpretado da forma que convem ao contexto ou outro" não depende de convencimento, e sim de disposição cultural e desejo de acreditar.

Nossa constituição foi de fato escrita sob o pretexto de que, entre outros, cada indivíduo é livre para acreditar no que quiser. Você não será preso por acreditar em fadas, ovelhas que nascem em árvores, extra-terrestres que desenham círculos em plantações ou amigos imaginários que te amam e prezam por seu bem estar. Já que somos livres para essas coisas, podemos também ser livres para assumirmos publicamente nosso credo.

O efeito final disso foi um novo chavão: "O Brasil é um país laico". Aprendi isso no colégio, acredito que muitos colegas tenham ouvido esse termo em algum momento de suas vidas. Não busco uma definição formal para o jargão "laico", mas traduzo como aprendi: O governo e partições públicas de nosso país não têm religião oficial, e como tal não devem pregar oficialmente a favor de ou realizar em seus contextos oficiais qualquer ritual proveniente de qualquer religião. Isso garante que o evangélico não precise tolerar em seu ambiente de trabalho um ritual de umbanda, essa que eles tendem a considerar como fruto de obra de seu inimigo maligno. Se o cidadão quer um espaço para seu ritual, deve separá-lo para tal, independente do governo, afinal sua liberdade garante isso.

Acredito que esse chavão de país laico tem perdido um pouco do charme nos últimos tempos. Como todos sabem, há uma guerra ostensivamente declarada entre organizações religiosas e "o senhor desse mundo", o anteriormente citado inimigo maligno, responsável por muitas das mazelas do mundo, como as drogas, a maldade e o coração de pedra. Essas organizações guerreiras têm garantido pelo mesmo governo que declara laicidade algo chamado "imunidade tributária". Traduzindo em miúdos, instituições religiosas são livres de impostos. Algumas movimentam milhões de reais em dinheiro todos os meses (ou semanas, ou dias).

Há também uma certa "bancada cristã". Os mesmos guerreiros instruem seus membros, livres para opinião e para acreditarem no que querem, a direcionarem seus votos, definindo assim, por uma vantagem numérica considerável, diversos políticos que assumirão cargos oficiais. Afinal, o que há de errado em utlizar a liberdade de escolha para doutrinar pessoas a apoiar suas ambições? Assim, o país sem religião oficial toma decisões oficiais sob a óptica de uma religião.

Pois bem, cheguei à conclusão de que não vivemos em um país laico. Um país laico não aceita rituais religiosos para abrir seções de câmara. Um país laico não permite que uma instituição religiosa alcance influência política e riqueza sem pagar impostos. Tive um amigo que tinha uma cadela da raça "pastor alemão" chamada "Laica" (no caso, a palavra deriva de lobo), e tenho certeza de que ela não introduzia rituais religiosos na casa do rapaz; então, meu novo chavão é "Já vi cães mais laicos que esse país". Mantem o ambiente de bom humor e poupa os ouvidos do interlocutor de um outro chavão que luta para sair de minha boca: "Laico é tua bunda".


Todos têm uma religião no país laico, e "não ter uma religião" viola diretamente esse axioma fundamental para a manutenção coerente de um ambiente civilizado, então ateísmo é considerado religião em quase todos os contextos sociais, e como a maior ferramenta para propaganda do ateísmo é a ciência, posso deixar uma sugestão: imunidade tributária para o desenvolvimento científico e uma posterior "bancada acadêmica" na assembléia. Universidades privadas sem posicionamento religioso poderão se declarar atéias e serem consideradas instituições religiosas, e indústrias nacionais emergentes que realizam pesquisa também. Assim, ateus poderão ensinar e pesquisar suas coisas atéias, realizando seus "rituais" ateus em seus microscópios e câmaras de plasma com respaldo legal para não pagar impostos, e de quebra acontece algo útil, tipo desenvolvimento e progresso motivados pelo custo reduzido. O problema é que, no mercado de chavões, esses dois parecem ter mais a ver com exportação de grãos e a copa do mundo de 2014.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Golpes de sorte

O acaso inspira o imaginário humano há tanto tempo quanto existem humanos para imaginar. A necessidade de acreditar que o acaso segue regras rígidas previsíveis de alguma forma traz alento para alguns, um alento que torna a vida mais tolerável.

Há muito tempo já se buscava formas de prever o que o acaso reserva para as pessoas. Como o acaso é incontrolável, a lógica mais versátil que humanos podem aceitar é que algo com vontade própria o rege, então existem vontades e emoções envolvidas e, por que não, sinais para se comunicar com quem merecer ouvir.

Assim surgiram os oráculos e profetas, pessoas com o suposto dom especial de dizer o rumo das grandes guerras, as melhores decisões políticas e prever a estação seca. Atualmente, as variações incluem líderes religiosos barulhentos e ricos, redatores de jornal que copiam frases de um banco de dados e um polvo que gosta de futebol.

Os métodos variam. Há quem fale de transes, há quem diga que o vôo dos pássaros sinaliza o rumo que os deuses dão ao mundo, há quem diga que os testículos do bode sejam fontes de sabedoria e há quem diga que estados de alteração dos sentidos sejam momentos espiritualmente proveitosos para, entre outros, prever o acaso. Há quem diga que pedir a Deus pode mudar a forma do acaso e há até quem grite com ele em linguagens que não sabem o que dizem (o que não acho muito gentil em uma conversa civilizada com um ser superior, mas quem sou eu para julgar a crença alheia?).

Não vou questionar a veracidade dos supostos dons (algumas vezes sobrenaturais) que alguns dizem possuir e que alguns parecem confirmar. Apenas por uma questão de vocabulário, vou definir aqui que o que estou chamando "acaso" recebe de alguns desses grupos um nome especial: "sorte". Há a variação "vontade de Deus", mas ficarei com a primeira opção por simplicidade e por resumir minha fala.

A palavra "sorte", porém, padece de uma ambiguidade que muitas vezes dificulta a comunicação. "Sorte" para alguns indica algo que se tenha, alguma propriedade atribuída a certos seres, que tendem a ser abençoados com aquilo que julgam agradável com certa frequência por puro golpe do acaso. Seria então uma "pessoa sortuda" alguém a quem o acaso privilegeia constantemente com aquilo que há de melhor.

A Internet me tem feito acreditar que sou sortudo. Ao menos tem se esforçado um bocado. Já fui o visitante número 1.000.000 de vários sites, já tive muitas mulheres querendo se mostrar nuas para mim na webcam e, a última passagem que me marca, é um email comunicando uma premiação.

A carta de correio eletrônico não tinha uma mensagem, apenas uma imagem em anexo com a mensagem. Isso previne que certas cartas de tal importância se percam no filtro de spam, esse que não tolera as sutilezas da sorte. Ela dizia que ganhei 480.000,00 libras, um número com mais zeros entre o último significativo e a vírgula que a maioria dos que estou acostumado a lidar e que indica que estou rico ou gordo. Tendo a acreditar na primeira opção, pois após alguns breves cálculos de conversão concluí que 480.000 libras é um valor um pouco elevado para ser possível a um único humano engordar. Elevado o bastante para, caso eu o engorde, um canadense poderia tomar nota e ter a bondade de me avisar por email.

Fato, não citei que o email dizia ser de uma promoção canadense. E vinha ao final um endereço eletrônico de um fiduciário ao qual eu deveria responder a mensagem com um código de promoção. alguma coisa que terminava em "@bol.com.br". Parece de boa fé.

Como agora julgo estar rico e repleto de mulheres nuas interessadas em mim, acredito ser eu alguém muito bem quisto por aquele que após definições anteriores trato por "entediado supremo". Ele é legal às vezes. Agora preciso aguardar a resposta do email para saber como retirar meu prêmio.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Bola ao mar

Por algum motivo, andei pensando na chamada "Festa do Chá de Boston", ou Boston Tea Party para fazer jus ao nome original. Não me proponho a fazer um blog para falar de história, então vou resumir aquilo que me foi ensinado: colonos do território dos Estados Unidos não aceitavam ser obrigados a comprar o chá que a Inglaterra lhes determinava por lei, então, como foram impedidos de enviar o chá devolta a sua origem, decidiram por jogá-lo ao mar.

É um exemplo de ato "grandes bosta" para alguns, mas tem um significado simbólico fortíssimo: revela insatisfação e demonstra uma tendência forte para a independência. Diz "Se não posso ter o chá que quero, não terei chá", simples assim.

Protestos não são atos fáceis, muito menos simples. Declarar insatisfação e tomar uma atitude contra alguém que, do fundo do coração, não se importa com isso é uma atitude muitas vezes perigosa. Acha que não? Seu cachorro já aprendeu o custo dos protestos. O que seu cão faz quando está bravo com você? Nunca notou? Quem já pisou na bosta dentro da sala de estar sabe do que estou falando. E para repreender o cão, damos algumas palmadas. O cão conhece cedo os custos de andar fora da linha.

Mas eu estive a imaginar uma situação hipotética. Imagine que eles gostassem do chá, mas apenas quisessem a oportunidade de abrir o leque e comprar de outros. Imagine se jogassem o chá ao mar em protesto e, no dia seguinte, voltassem para pegá-lo (afinal, o produto estava pago, que absurdo deixar ali). Após isso, continuam comprando o chá normalmente, como se nada tivesse acontecido. Eles aprenderam a lição. A cena te pareceu absurda? Me pareceu bastante plausível, vi algo parecido há poucos dias.

Nosso país é famoso pela eficiência da manipulação das massas. Uma combinação bastante eficaz de uma cultura pobre, um sistema educacional abandonado e um apelo comercial constante, além de uma série de subsídios sociais, criou para o país uma cultura semelhante ao "pão e circo" que anos atrás chamei (não devo ter sido o primeiro nem o único) de "futebol e fome zero".

Mas há quem perceba que há uma manipulação. Quem disse que a massa é burra, não? Todos dizem "eu tenho opinião própria", "eu sou livre pra fazer o que quiser". Sou bombardeado por discursos de liberdade de opinião e independência cultural todos os dias.

Eu tenho uma má notícia: você não é livre. Eu também não o sou. Somos formados pelo ambiente ao nosso redor. Um ambiente violento cria pessoas violentas que não escolheram ser violentas, apenas aprenderam a acreditar que essa é a melhor opção. Não ouse chamar isso de liberdade. Um ambiente submisso cria pessoas submissas, um ambiente de omissão social cria cidadãos socialmente omissos. O mais interessante é que vejo essas mesmas pessoas falando umas das outras como se soubessem o que é melhor para o país.

E aqui começa uma bela história.

Falarei sobre televisão. Um certo grupo de pessoas bonitas e bem vestidas surge todos os dias dentro de nossas casas falando sobre o mundo e mostrando histórias fictícias.

Como elas são simpáticas e bem vestidas, a tendência é os aceitarmos de bom grado. Oferecemo-lhes espaço à mesa de jantar, reservamos tempo que de outra forma dedicaríamos a nossos filhos ou aos estudos, damos espaços de nossas vidas íntimas, os convidamos para nos acompanharem à cama para dormir ou para nos fazerem compania após o sexo.

É óbvio que essas pessoas podem muito bem decidir sobre o que vão falar e como vão falar. E as daremos crédito. Afinal, elas contam a mesma história em todas as casas, e são tão agradáveis ao falar.

Assim, essas pessoas nos ensinam valores, nos sugerem o que comprar, nos dizem como é melhor tratar o filho, e, acima de tudo, nos ensinam como lidar com nossos problemas.

Quando falo em televisão, muitos lembram de certa emissora em específico. Apenas para ter um nome com o qual lidar, chama-la-ei "Rede Bola de Televisão". Ela tem o compromisso público firmado de mostrar o mundo com imparcialidade, nos mostrar que é possível construir um mundo melhor... enfim, muito bem intencionados e voltados para um público livre.

Alguém percebeu que a coisa não é bem assim. Eles fingem dizer as coisas sem manifestar uma opinião, mas eles a implicitam. As pessoas engolem isso com farinha e, assim, aceitam como certo ou errado aquilo que é dito. Aceitam, por exemplo, que manifesto de rua é baderna. Quem queima carro está errado, então a Inglaterra estava certa em conter a baderna de rua, e aquelas pessoas são provavelmente vagabundos arruaceiros sem nada melhor pra fazer. "Jovens voltando das férias", como ouvi certa repórter perguntar.

Como várias pessoas perceberam a manipulação constante, decidiram se revoltar. Combinaram sua própria Festa da Bola do Facebook, o dia de jogar a Bola no mar. Passaram um dia sem assistir nada de sua programação.

No dia seguinte, todos estavam na praia recolhendo suas parcelas do chá. A lição já estava passada, podemos voltar a assistir a Rede Bola.

O fiasco é bastante simples: se eu assisto à Rede Bola todos os dias e interrompo essa frequência por um único dia, eu mostro... que consigo passar um dia sem Rede Bola. Um dia antes e um dia depois, eu precisava saber o que acontecia na novela. Eu precisava ver o jornal deles.

Para você que passou um dia sem Rede Bola, parabéns. Minha vez de dizer "grandes bosta". Como forma de protesto, você cagou na sala e, depois, estava abanando o rabo para seu dono e aguardando o afago de costume.

Se você não quer ser obrigado a comprar o chá da Inglaterra, você deixa de comprar o chá da Inglaterra. Se você não quer ser manipulado pela Rede Bola, você troca de canal. Ou faça melhor, desligue a TV. Seja como for, não pense que é um revolucionário: você não está fazendo nada grande, só está deixando de fazer algo idiota.

domingo, 27 de novembro de 2011

Ensaio sobre o tédio

O estresse é um momento interessante na vida do homem. Dizem que o excesso de preocupação estimula o processo criativo e facilita a produção cultural de muitas formas. Talvez isso explique como certas figuras notórias da poesia, dramaturgia, ciência e música lançaram suas obras primas em seus momentos mais decadentes enquanto seres humanos. Shakespeare, Bethoven e Newton poderiam ser os exemplos mais óbvios e clichês.

Mas o que dizer do tédio? O tédio é a falta do que ocupar a cabeça, se não estou muito enganado, o que o classifica como o oposto do estresse. De alguma forma bizarra, o tédio é responsável por muitas atitudes e produções muito menos sensatas que as grandes peças de teatro, concertos ou teorias de ciência natural.

Vou exemplificar: foi certamente em um momento de estresse que Einstein teve a luz de imaginar que o campo magnético nada mais é que um campo elétrico visto de outro referencial (iniciando o processo que levou à relatividade). Por outro lado, foi certamente em um momento de tédio que alguém pensou que um som muito alto no carro faria os vizinhos quererem ser seus amigos. Foi provavelmente o estresse que motivou Picasso a rabiscar sua genialidade e provavelmente o tédio que fez com que o primeiro indivíduo tivesse a idéia de ouvir música sem fone de ouvido no ônibus coletivo.

O tédio leva o indivíduo a buscar qualquer coisa que ocupe sua cabeça, e isso tende a levar aos jogos ou ao desastre. Ou a ambos. O tédio e a iniciativa se combinam de forma bizarra.

Mas o nível de tédio que quero relatar aqui transcende todas as espectativas de qualquer pessoa, até das mais criativas. Imagine pois que você está dominado por um nível de tédio equivalente a estar no vazio há uma eternidade, sem mesmo um lugar onde prender os olhos. Agora imagine que você tem a capacidade de fazer o que quiser, ao limite de sua criatividade. Some os fatores e você chegou ao local de onde o tédio não seria capaz de passar: você criou o mundo.

Sempre me questionei o que levaria alguém a passar 6 dias criando um mundo. Ouvi muitos argumentos, todos muito trabalhados, nenhum muito conclusivo. Mas todos sugeriam dois motivadores comuns: narcisismo e tédio.

Então assim começa uma história: eu, tomado por meu tédio, crio um mundo. Ainda não satisfeito com o mundo, resolvo povoá-lo com alguém capaz de dizer algo além de alguns grunhidos naturais. E assim faço o animal homem.

Existem teóricos da teologia que sugerem que um deus todo poderoso seria capaz de prever tudo o que vai acontecer, uma vez que o mundo segue os trilhos por ele definidos. Conhecendo o mundo o quanto eu conheço e as coisas pelas quais os animais humanos costumam passar me questionei por muito tempo o que faria o mundo ser criado em primeiro lugar, especialmente por alguém que sabe tudo que vai acontecer. Para isso também ouvi muitas respostas trabalhadas. Já ouvi coisas como "porque queria companheiros", "para louvor de sua glória", entre outros. Enfim, tédio e narcisismo.

Há quem questione que lançar um companheiro recém criado em um mundo onde os outros companheiros o tratarão como lixo seria uma tremenda sacanagem, então argumenta-se que o mundo é o caminho para mostrar quem é um companheiro digno do criador e quem não é. Não questionarei por que afinal o criador não faz apenas pessoas dignas para ele e as permite pular a provação.

Assim foi feito o mundo e povoado por um animal inteligente de índole heterogênea que se auto destrói. Mata seus semelhantes, não chega a qualquer conclusão sobre de onde veio e para onde vai. Seguindo a lógica que compara o tédio e o estresse, me parece sim uma obra de alguém entediado. Mal sabe esse mal criado animal que é fruto da criatividade entediada de alguém com muito poder e pouco a fazer.

No final das contas tudo faz sentido se você retornar ao incício da reflexão: não tem nada aqui, não tenho o que fazer, sequer tenho o que observar. Vou fazer um mundo e ver no que dá. Just out of boredom. O deslize de alguém tomado pelo tédio, sem sequer um sudoku para passar o tempo. Se Deus estivesse estressado no momento da criação, é possível que estivéssemos hoje vivendo a utopia e tivéssemos poderes sobrenaturais e asas. Pena que as coisas não aconteceram assim.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Conto de fadas

Era uma vez uma vila como qualquer outra, sem nada especial e sem ninguém notório. Próxima a essa vila jazia quase imperceptível em meio ao mato não arrancado uma casa, um dia pertencente a uma adorável velhinha.

Dois caminhos ligavam a vila à humilde casa, um longo e um curto. O curto, embora tendo metade da extensão do outro, era morada de um certo lobo trans sexual mal intencionado com um apetite voraz por velhinhas e moças de chapéus vermelhos. Embora sua estranha preferência pudesse servir de alento a alguns, os mais cautelosos evitavam esse trajeto por garantia.

Diz um antigo conto entre os vilões que certa feita, chapeuzinho vermelho pretendia visitar sua avó, que por coincidência era a simpática velha da casinha. Descuidada, a moça, cujo nome sugere que ela utilizava o adereço tão apreciado pelo canino, decidiu por tomar o caminho mais curto, ignorando os avisos de sua mãe de que deixaria de pagar seus estudos se andasse por aquelas bandas, pois aquele caminho era reservado para os de índole duvidosa.

Por fim, o destino da pobre donzela é até hoje discutido na vila com entusiasmo nas rodas e nos bares, onde o velhinho saudoso conta sobre seu avô caçador que matou o lobo e resgatou de sua barriga tanto moça (com chapéu) e velhinha (cujas roupas vestiam o animal - tente não imaginar em que condições ela saiu); o cético bêbado discute que a garganta do lobo não permitiria que ele comesse duas pessoas sem mastigar e algum babaca que já bebeu muito mais que é de bom tom faz ameaças de denunciar o falecido avô do velhinho ao IBAMA, acreditando estar sendo engraçado. Quando percebe que ninguém riu, inventa alguma frase de duplo sentido entre a espingarda do caçador e o gorro de chapeuzinho vermelho. Quando nota que não agradou mesmo assim, começa a chorar o término de seu namoro.

O lobo está devidamente morto, independente da versão verdadeira da história antiga. Mesmo assim, por precaução, uma fita zebrada foi passada para fechar o caminho e impedir que outros sigam por aquele trajeto de lobos comedores de mocinhas inocentes. Não que houvesse chance de ocorrerem novos ataques, poucos se preocupavam de verdade com isso. A reputação do caminho era ruim, coisa de moças de chapéu vermelho sem consideração pela família e pelas tradições de seguir o caminho certo.

Talvez o lobo nunca tenha existido de verdade, mas não faz diferença. De vez em quando, alguns curiosos passam escondidos pela fita zebrada, sem o conhecimento de suas famílias. Outros acharam o caminho divertido e para lá seguiam para suas noites de diversão. Notando que nada demais havia naquele trajeto, decidiram questionar com as autoridades de sua cidade o que havia de errado por ali.

As respostas costumavam ser sempre as mesmas: "O caminho certo é o longo, e sem mais perguntas.", "Deus fez o caminho longo para nós e o curto para os ímpios", "As folhas são verdes demais" e "Ê, rapaz, eu não sabia que você gostava dessas coisas não". Assim foi até o dia que alguém exigiu seus direitos de seguir o caminho que quisesse sem ser julgado por isso.

Começou com um ato simbólico: o prefeito mandou alguém colocar um galho em pé no chão segurando a fita para cima, representando a posição da prefeitura de nunca ter proibido a passagem. A fita ficou por ali, afinal ela nunca incomodou ninguém e haviam já 2 gerações que estava lá, amarela e preta e dizendo que ali não era um bom lugar.

Maliciosos, Bullies se posicionaram nas duas saídas do caminho e esperavam os que por ali se divertiam aparecerem para apontar e rir. Outros mais radicais carregavam barras de metal e pedaços de pau consigo e batiam naqueles que eram estranhos demais para andar pelo caminho certo.

Algum dia, um novo prefeito decidiu que aquilo estava passando dos limites (primeiro porque não se faz isso com uma pessoa e segundo porque não havia mesmo nada errado por ali - mas as más línguas ainda dizem que ele se esgueirava por ali depois que sua esposa dormia). Deixou bem claro perante a cidade que não gostava do caminho, mas que quem quisesse andar por ele deveria ser deixado em paz para seguir o caminho que quisesse.

Assim, como novo ato simbólico, ordenou que um moleque de 12 anos chutasse o galho (para descobrir que alguém já tinha feito isso há muito tempo) e deu a um dos usuários do caminho uma tesoura e uma máquina fotográfica para que ele e seus amiguinhos cortassem a fita e publicassem o ato num jornal local.

Os bullies naturalmente não pararam. A fita foi cortada, é claro, mas os pedaços de pau dos bullies não perdiam seu desempenho por isso. Injuriados, os usuários do caminho decidiram se entregar à sociedade. Diziam "Eu ando por ali sim e ninguém tem nada com isso", organizaram passeatas do "Orgulho do Caminho Mais Curto", criaram comunidades no Orkut e pediram para que fosse aprovado um projeto de lei que criminalizasse as pauladas.

Esclareço aqui que as pauladas sempre foram crime, independente do caminho ser bom ou não. O que era necessário era uma manifestação da justiça no sentido de dar uma atenção especial a quem gostava do caminho mais curto. Em breve, dezenas de pessoas passaram a ignorar a repressão de suas famílias e o preconceito dos amigos e passaram a frequentar aquele caminho.

Os bullies foram presos e as pessoas foram incentivadas a aceitarem os frequentadores do caminho mais curto. A história da Chapeuzinho Vermelho tornou-se um tabu e o velhinho foi processado por sugerir que algum dia um lobo andou por ali, afinal tal afirmação serve para recriminar os frequentadores do caminho. O velhinho argumentava dizendo que não falou nada sobre quem anda por ali, apenas uma história antiga, mas foi mandado à prisão de qualquer forma. Os livros didáticos deveriam excluir alusões e piadas sobre caminhos mais curtos, e quem fizesse um trocadilho envolvendo caminhos curtos e lobos estava passivo de processo por preconceito.

  
Em poucos anos, não havia mais mato no caminho mais curto. A casa ao final foi derrubada porque era considerada muito retrô, e se você mencionar que por qualquer motivo acha que há uma árvore no caminho mais comprido mais bonita que outra do caminho mais curto pode ter o mesmo destino do velhinho.

Todas essas mudanças são vitais e bem vistas pelos famosos da vila, em nome da manutenção da democracia e da liberdade de expressão, e se você discorda disso deve ser apedrejado em praça pública por ser um porco preconceituoso. 

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Sobre action figures e o fim do mundo

Conforme o tempo passa, a lógica do convívio social muda.

É interessante notar, por exemplo, o quanto os hábitos de vestimentas mudaram da idade moderna para cá. Antes, os ternos eram a roupa de passeio, o trajamento utilizado para qualquer situação que lhe retirasse do aconchego do lar: desde o encontro com os pais da namorada até a solução do pequeno impasse com seu vizinho. Por sinal, o impasse com seu vizinho, hoje resolvido com alguma gritaria ou o chamado da polícia, antigamente era resolvido com dez passos de distância e um único tiro. Alguns consideram que evoluímos, outros não têm tanta certeza.

Hoje evitamos o terno. Por sinal, poucos conhecem o termo "Traje de passeio", e se referem ao trajamento como "roupa social", já que ele agora serve para ocasiões especiais, como casamentos. Você não acerta as contas com seu vizinho usando um terno; em geral as pessoas preferem fazer isso de bermuda e chinelo, e ao invés de um tiro algumas bordoadas passam o recado. E seu sogro e sogra te consideram bem vestido se ao primeiro encontro você utilizar uma calça jeans, um tênis limpo e uma camiseta que não mostre uma folha de maconha. 

Mas as roupas não foram as maiores mudanças. O vocabulário sofreu distorções muito mais absurdas, e esse com certeza é o que muda com maior frequência. Expressões hoje comuns ao seu meio serão consideradas caretas em menos de dois anos. "Massa", uma gíria comum à minha infância, é careta. "Bacana" é um bocado careta, e "Careta" é extremamente careta.

Seu gosto musical será considerado arcaico dentro de uns quinze anos. Aliás, se você tem algum gosto musical provavelmente ficará chocado com as mudanças no gosto musical da maioria dentro de poucos anos e passará o resto de sua vida dizendo o quanto as músicas eram melhores no seu tempo, do mesmo jeito que seu pai faz com frequência. Temos certa resistência a mudanças.

No tempo citado dos ternos e duelos, homens economizavam por anos para comprar uma bengala de qualidade para ressaltar seu bom gosto e elegância, mesmo que isso significasse não mobiliar a casa. Há décadas, o maior gasto era com o terno vindo do bom alfaiate, a roupa que serviria como seu cartão de visitas por onde quer que fosse, e sua família não pouparia esforços para te ver bem vestido e, assim, se orgulhar. Hoje, de alguma forma bizarra, o status de alguns é definido por aparelhos de telefone celular que algum comerciante brasileiro apelidou MPx (substitua 'x' por algum número que satisfaça sua imaginação), vendidos em dez parcelas sem juros pelas casas Bahia e postos para tocar música de gosto duvidoso sem fones de ouvido no ônibus coletivo, almas caridosas ansiosas por compartilhar suas músicas gratuitamente com desconhecidos que estão indo trabalhar e anseiam desesperadamente pela chance de ouvir seu funk ou seu techno.

Tenho minha própria resistência a mudanças. Não gosto muito dos hábitos dos mais jovens de utilizar calças cuja cintura chega no joelho, rejeito com meu coração as franjas com chapinha do público juvenil de sexo dúbio e, com minha alma, reservo meus mais otimistas e sinceros votos aos proprietários dos MPx que ouvem música sem fone de ouvido no ônibus que tenham uma morte lenta por asfixia de desodorante Axe.

Talvez seja por isso que minha alma tem tamanha dificuldade em aceitar como vindos de mentes racionais certos conceitos que hoje são tão bem aceitos na grande massa. Por exemplo, eu poderia questionar "Que raios significa aquela máscara da Lady Gaga?", "Who tha fuck is Justin Bieber?" ou "O que aconteceu com o elástico das suas calças?". Mas ao invés disso, há outra questão que tem me tirado o sono e que gostaria de trazer à reflexão: Que diabos é a porra do "Orgulho Nerd"?

Sempre fui considerado nerd. Em minha infância, isso tinha um motivo muito bem definido, e envolvia meu hábito de jogar video game, tirar notas altas no colégio e não saber conversar com mulheres. Eu era chamado "nerd" por meus colegas não irem com a minha cara e gostarem de me ver irritado, simples assim. Um termo pejorativo, nascido para insultar e que eu rejeitava com todas as forças.

Hoje, me explique quem puder, algum rapaz coloca uma camiseta do Senhor dos Anéis, decora falas de Darth Vader e lê a obra de C.S. Lewis e, na mesa com os priminhos mais novos, bate no peito dizendo "sou nerd", como quem quer dar um bom exemplo de conduta aos seus aprendizes.

Não nego que não vou com a cara do povo que aderiu a essa onda que acha cult ser nerd, o que os encaixaria em minha definição anterior, mas acredito que alguma distorção dolorosa aconteceu por aqui. Em certa situação, fui questionado "Você não viu toda a série do Star Wars? Que tipo de nerd é você?".

Tal questionamento poderia levantar uma reflexão por si só. No momento, me limitei a responder "Do tipo que apanhou dos colegas na infância, ganhou o primeiro video game aos 2 anos e arrumou seu computador pelo telefone". A resposta satisfez e minha "imagem" como "nerd" foi preservada. Mas o questionamento permaneceu o mesmo.

Sou considerado um nerd, e explico que não é por meu gosto por RPG. Não tem a ver precisamente com o fato de preferir Linux a Windows ou por ter escolhido Física como minha graduação. Sou nerd desde infância por minha inaptidão ao convívio social. E talvez novamente por meu conservadorismo, nunca considerei minha dificuldade em conversar com meus vizinhos um motivo de orgulho.

Mas novamente, isso é uma questão minha, meu conservadorismo maltratando minha capacidade de aceitar certas mudanças sociais. Talvez seja apenas a idade manifestando seus sintomas. Talvez seja apenas uma mudança natural no significado da palavra "nerd" ou alguma estratégia de marketing muito inteligente.

Por fim, o fato é que sou um nerd. Da mesma forma que isso não fará você necessariamente gostar de mim, saiba que isso não me faria necessariamente gostar de você. E se você é fisiologicamente definido como um ser humano do sexo masculino e, por qualquer motivo, usa franja preta passada no ferro (a conhecida de toda mulher, a "chapinha"), a alcunha adequada não é "nerd, e sim "emo".

Antes que eu comece a falar sobre a mudança pela qual os emos passaram (de criaturas tristes que achavam cult cortar os pulsos, transformados em criaturas coloridas que acham cult falar como se tivessem alguma deficiência mental muito séria), encerrarei o texto por aqui. E se você tem um MPx, compre um fone de ouvido. Você descobrirá entre as vantagens o fato de o fone de ouvido emitir um som de muito maior qualidade e definição que o auto falante de seu celular, e eu usufruirei da outra grande vantagem: o fato de não precisar ouvir sua música.

Caso contrário, sonhe com frascos de Axe acoplados a um inalador.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Concerto cotidiano: rock das ruas curitibanas

Algumas pessoas dizem que certas músicas lembram certos momentos da vida. Talvez o fato da música ter sido ouvida repetidamente em algum momento específico faça com que a pessoa retome aquele momento maravilhoso com suas sensações, como o êxtase do primeiro beijo para os românticos que ouvem a música do casal, a fossa do fim de namoro para os deprimidos e bipolares que ouvem música de corno ou a emoção do começo de um "novo" episódio do Dragon Ball para os piás de prédio que ouvem aquela porcaria de música de entrada. Os artistas vão além e sugerem que momentos sugerem músicas e trazem a inspiração necessária à composição.

Não sou um artista. Talvez dos três grupos citados há pouco, posso me considerar como membro de todos. Apesar disso, há momentos que me sugerem músicas. Não as músicas inteiras, mas pelo menos os títulos.

E foi esse sábado um daqueles dias de inspiração. Vários momentos renderiam músicas incríveis baseadas no teatro cotidiano, e vários estilos diferentes podem ser destacados ali no meio. Nomes em inglês, apenas porque em português eles perdem a cara de nome de música (afinal, estamos habituados a ver nomes horríveis de música em inglês apenas).

O concerto poderia começar com o estilo punk. A música "Keep your flags up" traria o tempero patriota para falar sobre as pessoas balançando bandeiras com dizeres "Vote XX, Fulano de Tal" pelas ruas, num som que dá vontade de dar pulinhos e que, curiosamente, não te dá vontade de votar em ninguém. Músicas mais pesadas poderiam seguir, como a "I don't like you", uma música mais pesada e de ritmo mais rápido, com ênfase na bateria (Que curiosamente lembra um concerto de latas de lixo viradas de ponta cabeça sendo tocadas por trolls equipados com troncos de árvores) e falaria sobre uma temática mais curitibana, como o agradável hábito das pessoas não te responderem quando você dá bom dia.

Com o estilo aos poucos abandona o punk e parte para um instrumental gradativamente mais pesado, aos poucos nos aventuramos no ambiente do thrash metal e passamos a sacudir nossas cabeças enquanto uma pessoa nos insulta no palco. "Bruised" daria início a uma reflexão sobre a inabilidade de certos motoristas a estacionar nas vagas a eles disponíveis. "Stay away from me" retrata os desejos desesperados daqueles que são abordados por religiosos na rua e não estão interessados no algodão sagrado benzido no óleo de jerusalém (que por algum motivo não explicado te trará dinheiro e é de graça - afinal eles não estão interessados no seu dinheiro).

O concerto quebra o clima para partir ao power metal melódico. É necessário quebrar o clima ao invés de partir aos poucos na direção do estilo, uma vez que power metal melódico não combina com porra nenhuma. Mas as temáticas medievais comuns a esse estilo muito lembram o convívio das grandes cidades. "Living by the blade" falaria sobre a luta cotidiana do trombadinha que, cansado do discurso de que "poderia tá robanu, poderia tá matanu, mas tá pedinu", decidiu por assumir uma atitude decidida e honrosamente batalhar por seu sustento. Batalhar no sentido literal, afirmando que está "robanu e é melhor cê dá a grana ou ele vai tá te matanu", então ele corre em perseguições em meio à cidade fugindo da próxima música: "Knights of Justice" que fala da polícia muito interessada em resolver os problemas da população humilde.

E o concerto, para voltar a ter alguma música, quebra novamente o clima abandonando o power metal. Por conveniência, termina com músicas de prog metal. "Curitiban Skies" iniciaria falando sobre o belo céu que banha os curitibanos com seu nobre tom cinzento, alimentando os desejos europeus desses cidadãos de bem de permanecerem em suas casas sem falar com ninguém. "Dilma in the rain" falaria sobre o cartaz político abandonado à chuva. Para finalizar o concerto, "No Yellows on Horizon", uma música de 25 minutos que trata em tempo real dos pensamentos turbulentos da pobre mente abandonada ao relento da espera do ônibus Vila Rex, com solos de guitarra escritos em partitura e viradas de bateria que estarão ali pra encher linguiça e manter o tempo longo e te lembrar o quanto esses músicos são foda e o quanto você não se parece com eles.

Após o concerto, o curitibano continua olhando para um ponto fixo para não precisar encara ninguém à sua volta.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Campus Jardim Botânico

Já foi mencionada nesse mesmo blog a tendência natural dos feitos animais (e consequentemente os humanos) a convergirem no sexo. A reprodução é um dos pré requisitos fundamentais para que uma espécie sobreviva à seleção natural, reprodução sexuada resulta em muitas combinações genéticas que favorecem a evolução, etc, esses seriam vários pontos que poderiam ser ressaltados a respeito de tal atitude que certamente favoreceu a permanência de alguns animais pouco lógicos (como os humanos).

Mas ainda falando sobre o curioso animal "humano", talvez uma observação bastante interessante a se fazer no que diz respeito a hábitos sexuais é o comportamento dessas criaturas em situações extremas de abstinência sexual.

Apesar da tendência a se trazer à tona certos hábitos sociais de alguns indivíduos em evidenciar a desconhecidos seus intuitos ou observações sexuais ("vem cá, gostosa!" entre outros), o que vale ser ressaltado nesse conto em particular são as consequências de tal situação no humor e nos anseios cruéis de alguns.

Talvez tenha sido por iniciativa procedente de um anseio cruel, por sua vez procedente do gosto por violar hábitos de sono alheios, que se convocou através de um aviso um grupo de alunos (entre eles Flubber®) a uma reunião em uma manhã de sábado. Seja qual for a origem desse impulso, a pessoa que marca uma reunião em uma manhã de sábado não faz sexo. Pelo menos não com a frequência que deseja. Especialmente com os convocados a acordar cedo no sábado.

E lá estavam todos sentados em bancos de acentos confortavelmente inclinados na direção errada, se apoiando nas pernas para não escorregar ao chão (talvez uma técnica para manter as pessoas acordadas). Presentes estavam físicos, químicos, matemáticos, biólogos e humanos, todos nessa odisséia acadêmica assistindo a uma palestra à qual foram convidados a comparecer obrigatoriamente. Em um momento específico, alguns professores foram convidados a se dirigirem ao microfone para declarar alguns trabalhos de seus subprojetos, e foi nesse fatídico momento que se passou o inesperado.

Lá estava Flubber® assistindo às declarações de vários professores quando, por fim, decide levantar e tomar a palavra ao microfone. Os estudantes e professores dos demais cursos observavam sem muito interesse, afinal acreditavam ser um professor, mas os pobres alunos colegas de Física observavam atônitos ao avanço gradativo desse representante de sua classe, degrau a degrau, com destino à ruína da reputação de seu curso. Tomado o microfone, iniciou seu discurso. Dizia ele:

"O trabalho desse programa é realmente excelente e interessante por levar os estudantes a seu ambiente profissional e por incentivar a troca de conhecimentos entre o ambiente acadêmico e o ambiente escolar, e vai ficar melhor quando eu assumir como King size [1].  A primeira medida a ser tomada será a compra da Universidade Federal do Paraná e o investimento massivo nas bolsas do programa, que de quatrocentos reais passará a valer mil e duzentos reais." (nesse momento, professores se entreolhavam curiosos para entender o significado de tal petulância)

Assim que o discurso terminou, Flubber®, ovacionado por seus colegas de vários cursos, retomou seu lugar e um grupo de mafiosos chineses derrubou a porta para entrar. Muito tiros e pessoas mortas depois, Flubber®, após quebrar o braço de um deles e amarrar outro com uma alça de mochila a uma cadeira para que se segurasse com as pernas para não escorregar ao chão, correu à saída ouvindo tiros atrás de si e rolando para conseguir cobertura.

Esse é um daqueles momentos em que o leitor pergunta "Sério?" e eu respondo "Não". O fato é que Flubber® estava com sono demais para aquele momento fazer sentido e sua imaginação é a grande culpada por ter passado algum tempo rindo sozinho na cadeira enquanto professores falavam ao microfone. Se alguém deve ser culpado, esse é o sujeito que declarou o recebimento por sua família de um brasão King size por parte da corte portuguesa. E se ele quiser se manifestar a respeito do texto, encare como homenagem de alguém que apreciou os quase dois minutos de vídeo.

Referências
[1] Lima, Alexandre dos S. e Azarada, Repórter, King size - Entrevista sobre as Barcas no Rio de Janeiro, Youtube, 2009.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Recordações

Curiosa é a forma como os momentos ociosos terminam. O "Dicionário Informal" define "ócio" como "Tempo livre, vago / O não fazer nada / Preguiça / Vadiagem" (nesses mesmos termos, fonte e cores, o que talvez me sugira que eu deveria largar de preguiça e buscar por um dicionário em minha prateleira ao invés de pesquisar na rede mundial). Talvez boa parte dos sinônimos ali sugeridos não sejam condizentes com a condição do momento que desejo relatar, mas o fato é que o ônibus é um lugar propenso ao "não fazer nada". Curiosos são os momentos ociosos: poucos momentos são tão pouco produtivos e tão produtivos ao mesmo tempo. Sugeriu certa feita um professor doutor (doutor, doutor e doutor, pra ser mais preciso) de minha estimada universidade que uma instituição superior de ensino que promova pesquisa deveria prever um período no horário de seus docentes reservado exclusivamente para a reflexão, um forte indicativo de que aquilo que o dito dicionário da rede chamou de "vadiagem" é reconhecido por profissionais doutores (ou pelo menos um) como um período importante no processo de se trabalhar com o cérebro. O ócio é o momento em que o introspectivo está bem acompanhado, o louco fica mais louco, o hiperativo explode, Newton recebe maçãs na cabeça, Schrödinger ensaia requintes de crueldade com gatos e Capra enxerga átomos em estados caóticos sendo bombardeados por raios cósmicos e, de alguma forma, relembrando a dança de Shiva. Mas em geral, a maioria prefere apenas vadiar.

O ócio pode fazer tanto com que você surja com a idéia genial que te torne rico quanto te lançar fora do emprego e te deixar morando em baixo da ponte. Seja como for, o ócio é o momento da maior produção mental que o humano conhece. E foi em um momento de ócio como qualquer outro que fui levado a refletir (culpem o ócio por todos os meus textos nesse espaço). Não questiono a possibilidade do fato de eu estar dentro do Interbairros II no momento de tal reflexão ter influenciado de alguma forma as letras que logo vêm, mas qualquer momento de ócio pode produzir desde o mais sensato ao mais absurdo. Não, eu não estava chapado, antes que alguém se pergunte, estava apenas relembrando minha infância.

Ao ler tais palavras, os corações de certos leitores se recheiam do temor semelhante ao de uma pessoa que acaba de ver um acidente ocorrer diante de seus olhos. Porém, como em todo acidente, a maioria apenas está curiosa para ver os mortos e aglomera em torno da desgraça alheia até que venha alguém puxar o cordão de isolamento, então acredito que poucos pararão de ler ao saber que conhecerão algo de tão importante fase de meu desenvolvimento.

A minha infância foi quase a de um físico típico (daqueles que tiveram infância, que fique claro). Aos dois anos eu tinha meu video game, aos 5 destruí um carrinho de controle remoto para ver como funcionava, aos 10 fui proibido de tocar na máquina de lavar, aos 12 tive meu primeiro beijo, aos 16 o segundo, aos 17 entrei pro curso de Física, e aos 18 me arrependi disso. Nesses entre-meios, alguns fatos marcam a vida do potencial cientista. Retornei eu, naquele momento de ócio-reflexivo-recordativo-não-chapado-no-interbairros-II, a um período muito peculiar de minha formação básica: a sexta série do Ensino Fundamental (no sistema antigo de 8 séries anuais de ensino fundamental e três anos de ensino médio).

Recordo com algum saudosismo esse período ímpar. Nesse tempo eu ainda acreditava que tinha algum talento para o futebol. Eu era um dos nerds do colégio. Ao contrário da recente onda "nerd" que assaltou os ambientes adolescentes devido à propagação de certas propagandas geeks na rede, eu nunca fui nerd por opção. Ninguém me disse que video game era mais legal que andar de bicicleta, eu apenas aceitava isso com muita alegria. Ninguém me disse que perder o final de semana estudando linguagem C era mais divertido que passar uma tarde de sábado em um shopping repleto de seres humanos, eu apenas me aliviava em saber que eu poderia fingir que era para a faculdade. E no colégio a situação não era muito diferente: meus gostos sempre divergiram da maioria em uma série de aspectos. Apesar das diferenças gritantes, uma criança de sexta série ainda é uma criança de sexta série: eu gostava de fazer coisas idiotas, e a que conto a seguir foi uma delas.

Meu então professor de Geografia era admitido por um recente concurso para professores do estado. Aquele era seu primeiro ano lecionando na instituição, e já foi ele capaz de galgar alguns títulos entre os alunos: O primeiro, pelo impacto, como professor menos simpático; o segundo como professor gay. Antes que o movimento homossexual dirija algum processo em minha direção, gostaria que ficasse claro que não estou aqui ofendendo ninguém. Se em minha sexta série isso foi engraçado, gostaria de lembrar a todos que as leis que se levantam contra a homofobia ainda não vigoravam (aiai, eu to ficando velho) e que eu tinha 12 anos. O fato é que eu achava graça na dicção peculiar do professor, e não era o único.

Devido a uma longa sequência de demonstrações do merecimento de seu primeiro título, o professor de Geografia gerou uma série de piadas, referentes ou não ao segundo. Culminou que, naquela fatídica manhã, o professor passou como tarefa para a sala a resposta do questionário de certa página do livro didático. Não recordo a página, o dia da semana, que roupa eu usava, recordo sim o colega e amigo Polak sentado à minha direita dando risada enquanto eu escrevia minha resposta à questão de número um: "Explique o que provocou a queda da URSS". Como exímio ignorante dos fatores geopolíticos ensinados em sala e como bom preguiçoso, não me interessei em descobrir o que provocou tal evento histórico, nem mesmo o que era a tal URSS, então não perdi meu tempo caçando a resposta pelo livro e iniciei um momento de escrita daquilo que os alunos do ensino fundamental de meu tempo chamavam de "pura sacanagem". Não lembro se o dia fazia sol ou chuva, mas lembro a primeira frase de minha resposta, que teoricamente deveria constar apenas em meu caderno: "O imperador gay, (nome do professor), fez um manifesto para defender seus direitos homossexuais." Após várias linhas da mais pura diversão infantil (e de Polak estar controlando suas risadas), calhou que o professor passou olhando a resposta do colega, que estava em cima da mesa. Aquelas espiadas apenas para ver o quanto o aluno já escreveu. Só por curiosidade (interferência de Murphy), a minha resposta ele quis ler. Tomou-me a folha à mão e, com seus óculos na ponta do nariz, lia com um ar ríspido. Talvez não fosse assim tão ríspido, mas o prenúncio que aquela leitura me trazia não era agradável. Polak, como os bons amigos fazem nesses momentos, baixou sua cabeça e começou a rir histericamente. Ao notarem minhas transformações cromáticas ao período de silenciosa leitura do professor, a sala aos poucos foi também silenciando e o assistindo sem saber por que eu estava mudando de cor ou por que Polak não conseguia parar de rir.

Dez minutos depois, no recreio, os alunos não queria procurar os populares, as meninas bonitas, as bolas de futebol ou o lanche. Queriam, sim, saber da parte do nerd o que afinal trazia aquela folha em seu texto que provocou tão eufórica reação do profissional de educação que, sem explicar ao resto da turma o porquê, após a pergunta clichê "qual é o significado disso?", passou a proferir a quem quisesse ouvir algumas das implicações que poderiam proceder de minha atitude ao escrever isso de uma pessoa (implicações que passaram pelas "ocorrências", os documentos preferidos dos professores antipáticos, as "expulsões", os "processos", as "indenizações", as "prisões", o "mármore do inferno" e, de alguma forma curiosa, a "Pipoteca de vinte centavos da cantina" - não que ele falasse sobre isso no momento, mas eu estava com fome e faltava pouco para o recreio), em um tom que faz jus ao primeiro título.

No final das contas, talvez pelo professor ter um coração que não faz jus ao mesmo primeiro título, não precisei indenizar, ir preso, responder a processo, levar uma ocorrência pra casa, sair do colégio ou arder no dito mármore (apesar de ter comido da Pipoteca), apenas carreguei a bronca comigo como uma lição. Com o tempo a gente acaba percebendo que o professor não é necessariamente antipático, apenas não tinha ainda experiência para conquistar a turma e tendia a ser mais ríspido que o necessário para se fazer respeitar, o que, acredito, mudou com o tempo e com os anos seguintes. Mas a lição que aprendi foi valiosa: quando queremos falar de alguém pelas costas, devemos nos certificar de que o indivíduo esteja, de fato, de costas e a uma distância segura, e que a via por onde se dirige o insulto não seja de acesso comum entre você e a pessoa.

Sei também que caso o saudoso professor encontre esse espaço e o texto saberá que o texto fala sobre ele (e saberá quem é Flubber®), mas sabe que essas linhas não refletem ressentimentos nem dirigem insultos à sua pessoa ou trabalho.

Diferente do conflito intercultural narrado tempos atrás, essa história é verídica, mas sempre corro o risco de você, leitor, não acreditar. Caso você não acredite, não há problemas, uma vez que estamos ambos no ócio e você com certeza só leu até aqui para rir da desgraça alheia.

Terminada a reflexão e o saudosismo, volto ao mundo real e solicito ao ônibus a parada a tempo de descer no ponto correto.

domingo, 20 de junho de 2010

Correios... curiosos correios...

A dádiva da comunicação não é um privilégio humano. Já foi mencionado nesse mesmo blog o quão eficazes são os animais em demonstrar certas informações (como "estou com fome", "estou feliz", "você pisou no meu rabo, cacete", etc), e se me engano e não foi mencionado... sinto muito, não acho que cabe falar muito a esse respeito.

Apesar disso, os animais humanos se eximiram historicamente em desenvolver sua comunicação a níveis onde a eficácia não pode mais ser discutida. Desenvolveram uma linguagem falada, transformaram em escrita, criaram registros, inventaram formas de correio de informações, entre muitas outras aquisições respeitáveis. Com o passar dos tempos, deixou de ser um conforto e passou a ser uma necessidade, um aguardo ansioso. Uma demonstração da importância dada a certas informações foi a corrida de Pheidippides para anunciar a vitória na batalha de Marathona (logo após a corrida para pedir reforços a esparta), que terminou em sua morte por exaustão. Dito pelo não dito, a tragédia alheia inspirou as atuais maratonas, onde se colocam vários animais humanos a correr um trajeto sem algum objetivo aparente além de chegar antes do outro ao fim do percurso predeterminado, e sem mortes, o que tira metade da diversão. A veracidade da história pode ser questionada, os estudantes de História podem querer me lançar pedras pela história mal contada, o fato é que de lá pra cá a comunicação e seus meios sofreram certas distorções irreversíveis. Disserto a respeito.

O rádio pode ser um exemplo clássico. Quando no século XIX foi desenvolvido o primeiro sistema de transmissão de informações por ondas de rádio (dizem algumas más línguas que a invenção não é de fato de Tesla, mas foi a ele atribuída pois usava duas dezenas de patentes suas), não se tinha em mente alguns avanços que ocorreriam dali em diante. Da rádio transmissão à rádio comunicação utilizada em guerra, à rádio transmissão utilizada nas grandes cidades como mídia de alcance massivo e à sua avó sentada na cadeira de balanço ouvindo música sertaneja houveram alguns saltos tanto em conceitos tecnológicos quanto em conceitos comerciais. Seja como for, o inventor jamais imaginou sua criação transmitindo o Rebolation, o que poderia atribuir-lhe um fardo semelhante ao de Santos Dumont ao saber que sua invenção (questione a autoria quem quiser) fora usada como máquina de guerra, ou ao de Oppenheimer por presidir o projeto Manhattan e a criação da bomba atômica dos Estados Unidos (ele se arrependeu, pobre diabo, suas intenções certamente eram as melhores ao criar uma arma de destruição me massa de fissão nuclear).

Por fim, não pretendo me alongar a ponto de falar sobre o correio eletrônico e sobre os pseudo cartões virulentos de natal (em abril), sobre a televisão como maior meio de propaganda e entretenimento, a internet como maior meio de divulgação pornô, ou ao fato de estar o país sentado em frente a televisores assistindo outro evento mundial de grande importância (animais humanos com roupas coloridas correndo atrás de uma esfera de material dúbio e cheia de ar para lançá-la a uma rede) e Flubber® estar sentado em frente a um computador. Desejo me reter em um meio bastante rudimentar de comunicação, embora ainda muito útil: o correio.

O princípio do correio, creio, é bastante simples, embora sua organização não o seja: algum objeto precisa abandonar seu local de origem e atingir certo destinatário distante. O objeto pode variar de uma carta a um pacote com bactérias infecciosas, o fato é que virtualmente tudo que se deseja transferir de uma região a outra pode ser deslocado na medida do bom senso. E o bom senso de alguém me atingiu em cheio no meio do escalpo.

Certa feita, empresas de cartão de crédito concluíram que seria uma boa estratégia de marketing enviar cartões prontos e cadastrados por correio. Simples assim: seu cadastro é feito e dias depois você fica sabendo! Incrível, não? Com o passar de alguns anos, um certo serviço de defesa dos direitos dos consumidores (um órgão ainda tímido e em ascenção) concluiu que não era interessante ao consumidor ter seu cadastro efetuado sem sua permissão prévia, enquanto as mesmas empresas argumentavam dizendo que bastava o consumidor insatisfeito cancelar seu cadastro e não pagaria os boletos que não solicitou (um processo bastante simples que envolve uma ligação, uma meia hora de espera e uma taxa simbólica - afinal você está cancelando um serviço, antes não o tivesse assinado... opa, peraê... você não assinou?). O arremate do assunto foi que a prática foi por fim considerada ilegal, e as empresas passaram a ser obrigadas a solicitar a permissão das pessoas para fazer seus cadastros (maldade). Terminado esse assunto, apelaram para táticas de marketing mais tradicionais: fazer a proposta e tenta agradar o consumidor de alguma forma (que pode ser uma proposta a preços mais baixos ou até mesmo a omissão dos detalhes do contrato - afinal, o que os olhos não vêem, o coração não sente). Então elas passaram a pedir o telefone de seus potenciais consumidores às empresas de telefonia, e passou a ligar, tratando-os educadamente pelo nome e oferecendo serviços mal explicados.

Por fim, alguém concluiu que essa prática violava a privacidade das pessoas, que poderiam não se agradar de ter seu telefone divulgado a empresas que nada têm com elas. A partir daí, se a empresa deseja conquistar algum consumidor via telefone, precisa chutar números e fazer suas propostas a quem atende.

Por fim, toda essa coisa de telefone se relaciona no correio no ponto em que chegam à minha casa duas cartas endereçadas à minha pessoa. Não, eu não tenho um cadastro com a American Express, e muito menos com o Padre Hamilton José Naville, o fato é que eles me encaminharam, respectivamente, uma proposta de cadastro de cartão de crédito e uma medalha milagrosa. A proposta de cartão de crédito traz a oferta imperdível que, se você o utilizar a cada três meses, não paga a taxa de inatividade de trinta reais, além de alguns números de telefones e uma certa taxa de juros. O envelope da medalha milagrosa, por sua vez, traz um panfleto que diz "Medalha Milagrosa - um presente vindo do céu" (o que me sugere que recebi um fragmento de meteorito), além de uma carta com alguns dizeres sobre a importância da medalha, a vontade de deus na minha vida, uma assinatura digitalizada e uma lista de opções para resposta (que, resumidamente, em outras palavras, dizem "gostei de receber a medalha", "gostei muito de receber a medalha" e "gostei tanto de receber a medalha que vou te mandar dinheiro"). Desdobrando a carta, descubro um boleto bancário sem valor definido (basta enfrentar uma fila de banco e você pode fazer uma doação para agradecer pela medalha milagrosa).

Não quero recair no ponto das propostas e sugestões das cartas supracitadas (e ressalte-se aqui que "resumidamente", "ascenção", "cadastros", "avanços", entre outros, são sublinhados em vermelho pelo navegador como palavras desconhecidas e "Possíveis equívocos de linguagem", ao passo que "supracitada" é um verbete de uso bastante comum sendo, assim, uma palavra conhecida). Quero sim recair nas táticas de marketing utilizadas por essas pessoas (jurídica e, espero, física, respectivamente). Consulta-se um banco de dados e se recebe um nome completo associado a um endereço completo, então se faz uma proposta pessoal, educada e dirigida ao nome da pessoa, afinal, veja bem, não se pode passar o telefone das pessoas às empresas pois isso caracteriza uma quebra de privacidade. Por fim, concluo que, de acordo com certas lógicas, "tudo bem o sujeito saber onde eu moro, desde que não me ligue".

Tenho por convicções religiosas que não gosto de religião, não uso cartão de crédito e que adoro queijo. Tenho também por ideal que não dou meus dados a ninguém com quem não tenho negócios, pois valorizo meu espaço e minha privacidade. No final das contas, as correspondências que recebi ontem agridem duas de minhas três convicções religiosas e sugerem que em algum momento violei meu ideal. Caso a última afirmação seja falsa, alguém me fez o favor de violar meu ideal por mim, e ideal é como o ânus: cada um tem o seu, e a maioria não o quer violado.

Fecho esse conto das peripécias comunicativas humanas por aqui, sem conclusão mesmo, como de péssimo costume meu, apenas para sugerir a mensagem a quem a captou. De resto, espero que o jogo termine logo, pois meu gosto por fogos de artifício se limita aos de bela estética, e não aos de barulho interminável.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Dos pontos de ônibus da vida

Dentre os muitos diálogos de que participamos ao longo de nossos dias, existe sempre algum ou alguns que nos marcam de alguma forma, seja para o bem ou para o mal. Em geral, afirmações como “hoje chove” pode ter um peso pequeno quando você está no elevador e pode ser marcante quando você está longe de casa sem o guarda chuva (pobres curitibanos), mas frases como “O Michael Jackson morreu”, “O Coxa ganhou” ou “hoje não tem aula” sempre arrancam alguma exclamação impressionada, ora por pavor ora por alegria incontida. Reconhecendo a dificuldade em se determinar quais frases possuem tal efeito, ignorando a natureza positiva ou negativa do impacto causado, proponho-me a definir aqui algumas regras que, julgo, funcionam em qualquer situação, embora não sejam únicas e invictas.

Apesar de não se poder definir o que causa impressões fortes nas pessoas, já que cada um valoriza fatores diferentes a diferentes pesos, talvez seja conveniente definir alguns inícios ou finais de frase interessantes, que, em geral, chamam a atenção do interlocutor, já que as frases que exigem essas premissas e conclusões costumam ser de peso relevante à maioria.

É comum se exigir a atenção das pessoas à sua fala com a expressão “veja bem”. Utilizar esse termo no início de uma resposta, por exemplo, faz com que você pareça entender algo do que está dizendo (apesar de provavelmente não entender) e compra tempo para pensar em uma resposta, criando alguma expectativa. Apesar disso, os finais costumam ser catastróficos, uma vez que se nota por fim que você, de fato, não sabe o que diz. Começar uma réplica com “não é tão simples assim” costuma ser eficaz em se tratando de um debate quando você tem a absoluta certeza de que, e quer deixar claro que, seu interlocutor está se esmerando em não fazer sentido, e também funciona quando você não sabe o que dizer depois mas só quer invalidar a afirmativa alheia. Expressões similares a “Mas se você parar para pensar” adicionam, por sua vez, um ar reflexivo e divagador a qualquer porcaria que se diga em seguida. Para se conseguir a atenção exclusiva de uma mulher, “você viu que” produz resultados surpreendentes.

Frases terminadas com a indagação “entende?” costumam exigir um aval. Não se está meramente concluindo uma idéia, mas se exigindo da parte atingida pelo diálogo uma opinião de cunho didático: você está a dizer algo complicado e quer se certificar de que o interlocutor esteja a par da informação completa. A resposta natural é “sim”, já que poucos assumem que não entenderam absolutamente nada e, também, não estão interessados em ouvir tudo novamente. A versão agressiva é “estou sendo claro?”, mas esta deve ser utilizada com cuidado. Existem casos, porém, em que a didática não é o único fator posto em questão, mas a opinião alheia. Nesses casos, “concorda?” é simples e direto. É eficaz, já que, à semelhança de “entende?”, exige apenas “sim” ou “não”, implicita que você continuará falando independente da concordância ou não do interlocutor e arranca um “sim” da maior parte das pessoas, já que em geral ninguém está interessado em ouvir seus argumentos. O aposto mais eficaz em chamar atenções, apesar disso, é menos elaborado, mais universal e não exige respostas. Qualquer frase terminada com “porra” atinge diretamente a alma das pessoas, sem pausas no enganoso ouvido: esse fim de frase garante que frases triviais ganhem peso e agressividade de afirmações inflamadas e argumentos acalourados. “Você viu o Marcos, porra?”, “Hoje é terça, porra”, “O Coxa ganhou, porra” e “Me faz um sanduíche, porra” são excelentes exemplos.

Porém, minha intenção aqui não é me deter no impacto gerado em conversas corriqueiras, e sim dar atenção a alguns momentos a que alguns cientistas não estão acostumados. Aspirantes a físico, assim como eu, entendem o impacto gerado por perguntas iniciadas com “você que faz física”. Esses são os momentos em que o físico faz sinal para o ônibus errado, lembra de compromissos importantes e inadiáveis ou arranja qualquer forma de fugir do assunto, como “a mãe vai bem?”, “será que chove?”, “Cê ouviu a história da gripe” ou “Orra, velho, cê viu o jogo do Coxa?”. Apesar das admiráveis técnicas desenvolvidas por alguns para esquivar de certas perguntas sobre física, o final costuma ser o mesmo: a pergunta é feita, o desastre é exposto e o físico fica tentado a simular um ataque cardíaco. Antes que se pense que o físico é um ser anti social ou antipático (maldade dizer isso), vamos voltar ao começo da história.

Tudo se inicia no papel, esse que tudo aceita. Tudo mesmo. Se eu tentasse agora fazer por escrito afirmações de baixo calão sobre a vida sexual da senhora sua mãe, por exemplo, o papel seria o último a me questionar. E assim começa o drama. Assim como o papel aceita tudo, o leitor muitas vezes engole tudo, principalmente quando não entende nada. Imagine o seguinte exemplo, temperado com o sabor do absurdo para salientar a triste realidade:

Alguém afirma que o uso de Hidrogênio como combustível nada mais é que transferir o problema da geração de energia para as usinas elétricas. “Seu carro não gera poluentes, mas a usina a carvão que alimentou a eletrólise dele emite, e pra cacete”. Então alguém, possuído da grande revelação, decide unir essa informação ao fato de que o Sol é uma grande usina descontrolada de fusão de hidrogênio, e interpreta que esse é o combustível dele (começa muito bem, pois afirma que há combustão no Sol). E se o combustível dele acabar? Então se escreve que manter o Sol queimando nada mais é que transferir o problema de sua geração de energia para às usinas elétricas. Quem sabe não convém que ao invés de hidrogênio o Sol não utilize outra fonte de energia... como a solar, por exemplo? Se isso é escrito em uma revista de fofoca científica (como aquela que é interessante pra caramba ou a que tem nome de filósofo da idade média) com os termos técnicos adequados (um “foi descoberto”, alguns “alarmante”s e um “agora sabemos que”), um monte de figuras bonitas, várias páginas de falatório desconexo, palavras difíceis (alguns termos comuns à física teórica), alguns gráficos pizza ou, ainda mais eficaz, gráficos tridimensionais e algumas figurinhas de átomos, o efeito final é um leitor tão confuso que, impressionado com o texto (e com o fato de não ter entendido absolutamente nada), afirma com um sorriso esclarecido “Hummmmmmm, é assim que funciona então”.

Assim começa a saga da informação científica mal repassada. A palavra é escrita, impressa impiedosamente no papel, que de nada tem culpa, e levada à mão do seu vizinho que, um dia, resolve, no ponto de ônibus, pôr seus conhecimentos à prova com o novo conhecimento de física avançada correlacionada a questões ambientais. E o físico entra num impasse.

O físico inexperiente tem esperanças de solucionar o engano e trazer o pobre leigo à luz. “Veja bem, isso aí não faz sentido, pois” e em seguida, após breves palavras, nota que seu vizinho, além de não ter entendido nada, conclui decepcionado que você está desatualizado das grandes descobertas. O físico mais experimentado no tortuoso caminho das conversas de ponto de ônibus sabe que, nessa hora, a resposta que encerra qualquer discussão é “pois é, interessante, né?”. O problema é que, em geral, seu vizinho não se contenta com isso. Ele quer explicações. Ele tem certeza que em uma conversa informal com um físico de verdade, tudo que ele precisa saber será esclarecido, pois só o que lhe falta é entender as palavras difíceis. Aqui, então, cabe entender o que faz as frases do representante dos físicos precisam conter para impactar seu interlocutor.

Ao contrário da conversa coloquial, aqui você está assumindo a posição do especialista no assunto. Termos como “veja bem” são excelentes e, mesmo que você não saiba o que diz, impressionarão. Porém, iniciar a fala com “não é tão simples assim” é coroar de antemão a fala com os louros da vitória. Note-se também que não estou falando de dizer algo certo ao seu vizinho, e sim de deixar seu vizinho satisfeito com uma resposta e seu orgulho em pé como cientista em formação, e tudo isso antes do ônibus chegar.

Lembre-se de utilizar alguns termos matemáticos misturados à explicação física. Termos geométricos como “cúbico”, “quadridimensional”, “geodésica”, “braquistócrona” ou “enantiomorfismo” seguidos de uma explicação breve o suficiente para não ser clara enriquecem a explicação. Adaptar certos jargões também surte bom efeito: o “É fácil ver que” pode se tornar “assim, fica bem simples notar que”, passando a impressão de que você está se esforçando para trazer seu vocabulário ao coloquial e tornar a explicação acessível. Por fim, para concluir o diálogo, um “enfim, é complicado” te faz parecer simpático com a confusão gerada em seu pobre vizinho. Citar o surgimento de algum termo obscuro na equação de Schrödinger pode parecer clichê, mas garanto bons resultados também. Mas ainda assim, não economize: quanto menos ele entender, melhor será a explicação. Mas se você está lidando com alguém mais esclarecido, por favor, explique que ele anda lendo muita porcaria. Seja como for, não use o termo “porra” aqui.

Eu digo tudo isso com esperança de ajudar, mas desejar com força que o ônibus chege antes da pergunta ser concluída não é um crime. Se você der sorte, ele já está chegando. Nesses casos, levantar a sobrancelha o máximo possível, fazer um olhar distante mordendo o lábio e dizer “hummmmm, é complicado” já é suficiente.

Em casos extremos em que o vizinho não entende pra que raios serve o seu curso, não se desespere. Apenas concorde com tudo e, caso indagado, diga “ainda não estudei isso”. Se te perguntarem “então você vai fazer a melancia quadrada?”, não diga “não, meu curso não faz isso”, pois isso sugere que você vá explicar em seguida o que seu curso de fato faz. Ao invés disso, experimente algo como “Um grupo de pesquisa japonês já está trabalhando nisso”. Para casos gerais, tenha em mente algum conhecimento básico de ergonomia e anatomia, assim você não precisa explicar nada estranho se seu vizinho vier com perguntas desse cunho acreditando que você faz educação física.

Caso tudo falhe, simule o ataque cardíaco.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Tão tão distante...

Perante o incrível, o assombroso, o enfadonho ou simplesmente o incomum, animais, dotados de seus complexos sentidos, apresentam diferentes reações, devidas a seus condicionamentos ou a seus instintos inatos, desde o cão que late voraz ao ameaçador invasor de território que, dizem as más línguas, não é nada além de um carteiro, à aranha que foge do destemível predador vassoura, de posse da senhora dona de casa que, certamente, não está muito mais à vontade que o aracnídeo com o encontro humano-artrópodo. Mas nem todas as reações possuem uma lógica muito bem definida: elefantes correm desesperados do rato medonho que se aproxima impetuoso de suas frágeis patas de meia tonelada e aparentemente alguns cães, mesmo sendo logrados de não sentirem prazer sexual como o humano ou o golfinho, tentam insistentemente copular com parceiros de sexos arbitrários, ignorando completamente a necessidade ou não de reprodução e o fato de que possivelmente será surpreendido por um balde d’água que sucede alguns dolorosos momentos em que sua genitália estará presa em algum furo igualmente arbitrário do cão vizinho. Muitas ações e reações curiosas, alguns viriam a dizer, mas se esquecem esses maus observadores que um animal específico não se limita a estranhas reações, mas se exime em romper a lógica animal, reage não meramente em desacordo com o bom senso e os padrões dos bons costumes zoológicos, mas força seu caminho contra as barreiras da normalidade e do instinto de sobrevivência e passa a encarar o estranho como um fator de seu cotidiano com o qual deverá arcar e, que Deus os perdoe, se divertir. Contraria as formas da natureza, mas é autoconfiante o suficiente para encarar com normalidade as furiosas reviravoltas climáticas e bem humorado para satirizar as tormentas biológicas virais ou as mortes de certas figuras que a elas se assemelham. O leitor mais desavisado derrubará seu queixo sobre a mesa a imaginar que tipo de criatura da natureza seria capaz de tamanha bestialidade, mas a fecharia novamente a lembrar dos próprios comentários a respeito de Michael Jackson, o falecido rei do pop (talvez mais famoso pelo “falecido” que pelo “rei do pop”). Sim, o animal humano. Quem no universo imaginaria uma espécie capaz de gerar o movimento emo, a Egüinha Pocotó, a pamonha doce e os Teletubbies?

Perante a tempestade, ao invés de berrar ao ar ou se esconder sob a mesa, o animal homem assiste filmes, toma banhos de chuva ou sai para trabalhar, pára para observar com atenção os animais de ronco assustador e velocidade alucinante, que para eles nada mais é que um veículo de motor de oito cilindros, e invejam com veemência os animais que vivem dentro desses outros. E não suficiente, encaram muitas vezes com coragem incêndios e grandes volumes de água, mas fogem amedrontados de baratas. Alguns riem do inesperado, outros olham com desconfiança. Mas como classificar Flubber®, que ao invés de assumir qualquer das atitudes mencionadas decide, ao se deparar com o estranho, escrever e registrar o que vê?

Ao cabo de inúmeros acontecimentos estranhos memoráveis, desde a enfadonha demonstração de poder de certo sujeito no Interbairros II, que urinava vorazmente na roda da máquina legendária, até a falta de tino do colega físico que, ao se deparar com uma antiga impressora no museu de informática da UFPR declarou “quantas cervejas será que cabe ali dentro?”, culminou que o primeiro em meses que moveu os dedos ossudos do físico Flubber® não surgiu da ferocidade climática, da sinuosidade animal, do absurdo da movimentação da massa populacional, mas sim na pequena esfera da relação interpessoal... mais precisamente uma criança. Disse ela em tom curioso “Nossa... mas tem um cabeção...”. Nada mais digno de registro. Apontava ela impressionada para Flubber®, a representação da inocência e, naquele momento, do espanto perante a desmedida manifestação de opinião estética vindo de olhos cuja inocência é ainda mais digna de crédito.

A que se deve tal interjeição? Nada além do trivial. Estava a criança (no caso um menino) acompanhada de outras crianças que a punham perante outros animais humanos e diziam “Não pode rir”. À comunicação da condição do momento, o menino passava a se manifestar, arrancando exclamações que partiam do “que gracinha” ao contido “ah, eu mato! Eu mato!”, mas, invariavelmente, arrancando risadas dos interlocutores. Culminou que, ao bater seus olhos sobre Flubber®, a primeira idéia que julgou digna de ressalva foi a respeito da geometria fisiológica do pobre físico. Quanto ao tal físico, nada mais pensou naquele momento além de “a que distância eu consigo arremessar?” e “como será que fica com o caldo de feijão?” mas, a única que expôs ao público foi uma breve risada, não meramente pela graça do momento, mas, em vista da condição “não pode rir”, seria esse o método mais eficaz para evitar comentários dimensionais de qualquer outra sorte. Afinal, o que seria se ele resolvesse falar do nariz?

Resolvido o contratempo silencioso, Flubber® decidiu retornar a seus afazeres, que, naquele momento, rodavam em torno de um pequeno pote de vidro cheio de caldo de feijão. Retomou antes que pensasse em algum experimento físico que possibilitasse o emprego de seres humanos para atestar a precisão de teorias relativísticas.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Conflito intercultural...

Após um longo período sem postagens no célebre espaço a ele reservado na rede mundial, Flubber® se depara com um novo golpe do acaso. Não que nesse período não ocorressem outros fatos dignos de registro, nunca teria tamanha pretensão de dizer que a vida do físico teria um período tão longo de calmaria psicológica, mas a saudade às vezes move os dedos sobre o teclado, ao mesmo passo que a preguiça os freia.

As linhas a seguir retratam um momento onde ocorre o alinhamento entre a profunda euforia do potencial cientista com a sagaz força motriz da máquina acadêmica, essa que a ninguém perdoa. O momento do trágico cômico em sua forma mais pitoresca: a prova de cálculo. Não precisamente esse momento, mas os momentos anteriores a ela.

Sabe-se de longa data que o Cálculo Diferencial e Integral é a disciplina menos amada pelos graduandos do estimado curso de Física. O encontro de um aluno mal preparado com uma prova desse conteúdo costuma resultar em choro, ranger de dentes, dependências, cancelamentos de matrículas e, em casos mais extremos, pedidos de transferência para o curso de Psicologia. E foi em um momento próximo a esse que Flubber® se encontrou com a realidade. Dizia ele a si mesmo: “Que faço eu se faltei as duas últimas aulas da disciplina e a prova é amanhã?”. Duas respostas costumam satisfazer a esse questionamento com absoluto sucesso: “Estudar feito um louco e virar a noite” (para os desesperados que acreditam nesse método) e “Convidar um grupo de colegas para o bar mais próximo para uma longa discussão sobre o assunto” (outro método que nunca funciona). Por fim, Flubber® tinha uma trapaça escondida, quase um conto do vigário: a matéria do semestre toda está em seu fichário, e ele já fez essa prova outras duas vezes. Com o mesmo professor. Nesse caso, uma terceira opção o agradou o suficiente: rever as fórmulas, resolver dois exercícios e tomar o resto do tempo pensando em seções futuras de RPG.

Na manhã seguinte, aquela fatídica manhã, Flubber® está à sala, pronto para a avaliação. Que venham Newton, Laplace e Leibniz, e que venham juntos, pois caso contrário a briga não terá graça. Ao invés dos ilustres filósofos, entra o professor Prado, um caro representante do departamento de matemática da instituição, um fruto inevitável da política importadora brasileira que não se contenta com a produção nacional e traz carros, laranjas, petróleo, eletrônicos e professores de matemática despudoradamente de países estrangeiros. A origem da figura é discutida vorazmente pelos alunos pelos corredores, mas o fato é que ele é um homem que fala espanhol e se esforça para conectar o português em suas frases e se fazer entendido, elaborando um idioma completamente novo, não entendido pelo que fala espanhol e nem pelo que fala português. Para os alunos de física, porém, a forma de expressão do profissional está aquém do necessário.

Após uma breve avaliação do material avaliativo, Flubber® toma a atitude que qualquer um tomaria em seu lugar: ao notar o baixo grau de exigência e o fator político que aquilo representa no decaimento da qualidade do ensino superior e a posterior desvalorização conhecida do profissional graduado, Flubber® rasga sua prova e a lança contra a face do professor, concentrando toda sua frustração política e desgosto pelo sistema educacional em uma frase curta: “Tua mãe é uma vaca venezuelana!”

Antes de anunciar a recomendação de que outros estudantes não deveriam seguir esse exemplo, gostaria de ressaltar aqui a necessidade de se protestar contra o sistema de ensino do país e contra a subvalorização da graduação a nível nacional. É necessário quebrar o vínculo com a cultura quase religiosa de seguir o conhecimento comum como única regra ditadora de conceitos e valores morais e lutar pelo aprimoramento dos formadores de opinião. Agora anuncio a recomendação de que outros estudantes não deveriam seguir esse exemplo.

Com reação à afirmação e atitude do físico, o professor cerra seus olhos e os abre novamente lentamente, com um ar contido e uma frase entre os dentes: “Mi madre es... ARGENTINA!!!”. Em seguida, guerrilheiros das FARC saltam rolando de trás das carteiras (a camuflagem deles é realmente versátil!) atirando sem um alvo específico. Flubber®, se protegendo atrás de carteiras e saltando de trás de uma para trás de outra, sob uma chuva de sangue de físicos e engenheiros, procurava pela saída, incapaz de protestar que as FARC pouco têm a ver com a Venezuela e ainda menos têm com a Argentina, pois além do cenário ruidoso, o professor completava o momento intercultural com tiros para o alto e brados de “Viva Fidel!”.

Agora aos fatos. A verdade é que a prova não era naquele dia, e sim na semana seguinte. O problema é que Flubber® anunciou a seus amigos sua preocupação com a prova para aquele dia e, ao perceber seu engano, precisava de uma boa história para contar. Infelizmente, as pessoas costumam acreditar apenas até o ponto em que surgem os guerrilheiros. A falta de fé desse povo realmente é perturbadora. Mas olhando sob outra óptica, o termo “Vaca venezuelana” tem um impacto interessante...

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Sala de aula

Essa é, sem dúvida, a mais densa selva do intelectualismo barato elaborado e pitorescamente administrado entre as mentes mais perversas e inocentes da história da sociedade materialista moderna. Não, não é o horário político, falo de um antro de figuras mais peculiares e mais interessantes: uma sala de aula em horário de aula de alunos de física.

A aula em questão possui um mecanismo de funcionamento bastante simples: os alunos apresentam aulas sobre assuntos previamente elaborados em compania do professor, apresentando experimentos e elaborando explicações voltadas ao aluno de ensino médio. Os trabalhos em geral apresentam assuntos pertinentes ao ensino em questão, todavia não apresentem a duração prevista de cinqüenta minutos. Termina que, em uma aula de 3 horas e 40 minutos temos 4 horas e 5 minutos de apresentações (e comentários do professor). Mas em geral, o período é representativamente produtivo no quesito literário, afinal, o curso de física ainda é o curso de física.

A apresentação versava sobre o magnetismo, um experimento interessante que sucedeu duas outras aulas com experimentos igualmente interessantes sobre assuntos distintos (e só poderia ser mais interessante se não terminasse em horário próximo às 11 horas da noite). Uma tomada de dados e uma comparação com o campo magnético da Terra... em seguida, o preenchimento da tabela do campo magnético gerado pela espira em uma dada corrente e um dos valores atinge a respeitável marca de 226. Os comentários de Flubber® seriam bem mais proveitosos se fossem feitos em momento oportuno e após a devida reflexão. Lembrou Flubber®, naquele momento, que uma ressonância magnética usa um campo absurdo de 2 Tesla, ao passo que o acelerador de partículas do LNLS em campinas administra um campo absurdo superior a 100 Tesla (Não, eu não lembro o valor de cabeça). Conclusão imediata do físico (o Flubber®, não nenhum dos outros presentes): o colega criou um gerador magnético de proporções improcedentes, talvez capaz de causar um apagão se ligado em momento oportuno e no lugar adequado. E tudo isso com 4 pilhas de 1.5V, um amperímetro, uma espira de 21 voltas e um potenciômetro. Uma bomba de pulso magnético feita de material reciclável.

Aquele experimento certamente seria único. As aplicações no campo de pesquisa científica e na área militar seriam promissoras. Um gerador de 226 Tesla que custa menos de 100 reais! A que ponto uma guerra poderia ser controlada com um mero pulso? Mal notara Flubber® que a unidade em questão não era o Tesla (T), mas sim o micro-Tesla (µT), o que tornava o campo em questão apenas um milhão de vezes menor.

Após seus comentários inconvenientes serem devidamente dispensados pelos alunos ao redor, Flubber® retomou sua reflexão... ao menos não custa sonhar!

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Centro (algum lugar entre o Círculo Militar e a Praça Carlos Gomes)

Estudiosos do comportamento animal sabem há muito tempo que, entre os sexuados, muitas atitudes (desde o canto do galo à cauda do pavão) remetem à boa oportunidade da relação com o sexo oposto. Freud (dizem as más línguas) tinha um tino especial para encontrar cunhos pejorativamente sexuais nas atitudes alheias, os historiadores, em maioria, concordam que uma das grandes influências políticas da antiga Grécia era exercida por prositutas, a igreja medieval maculou o sexo como pecado para controlar a população de alguma forma e até mesmo os eruditos da sabedoria popular concordam que tudo gira em torno do sexo. Isso evitando usar o vocabulário popular para tal afirmação.

Contrariando as tendências naturais impostas por nossas forças animais, existem também aqueles que, por alguma via ininteligível do destino, contrariando a evolução e os instintos animais, dotados de algum ensinamento sugerido pela nova etiqueta e de uma fofura incomum, se aproximam do sexo oposto com a mera intenção de uma interação amistosa sem cunhos reprodutivos ou despudorados, praticantes do tradicional "beijo no rosto", "abraço gostoso" e das trocas incontroláveis de informações (fofocas), uma relação outrora praticada apenas entre seres do mesmo sexo conhecida vulgarmente como "amizade (e nada mais, entendeu?)". Incomum especialmente entre os homens, tal comportamento é sempre gerador de comentários jocosos (ih, olha lá, o João tá sempre visitando a tal da Maria, hihihi), especialmente entre círculos de amigos (que normalmente só pensam em sexo), rodas de conversa no bar (que geralmente têm em suas atas longas discussões - às vezes não amistosas - sobre sexo), pais puritanos (um eufemismo que, in facto, trata de pais que sempre enxergam sexo nas atitudes alheias) e, principalmente, entre as amigas da menina que tem a amizade com o rapaz.

Comumente taxados de homossexuais, assexuados ou fofos, esses homens nada mais são que um acidente estranho da evolução social. E muitas vezes as mulheres esquecem que estes homens não são, de fato, assexuados, e não devem passar por certas provações (mas isso poderia ser assunto para um conto inteiro). Em resumo, mesmo sendo heterossexuais, esses amigos fofos não querem necessariamente te comer se te chamam para sair como amigos. Mas certamente não se ofenderão caso você os apresente aquela amiga bonita e solteira... mas isso não é uma sugestão, longe de mim. Quero relatar, com isso, outra curiosa seqüência de fatos que se passa com Flubber, o pobre físico observador do mundo real.

Flubber, como todo bom amigo fofo, tem o hábito de encontrar algumas amigas com uma pequena freqüência para a boa e tradicional troca verbal de idéias, a mais elaborada e eficiente forma de transferência de conteúdo jamais desenvolvida pela sociedade ao longo das eras. E esse era outro passeio, assim como o anteriormente citado passeio com De Lara. Dessa vez não trato de De Lara, mas de De Souza, uma grande pequena amiga com uma queda incomum por cafés e caminhadas pelo centro da cidade. Dessa vez, experimentamos um desafio de xadrez. Não que sejamos bons praticantes do tradicional esporte mental, mas apenas queríamos colocar à prova nossas rígidas habilidades cognitivas (e talvez dar motivo para os espectadores terem algum momento para rir). Duas partidas e ambos estávamos esperando ansiosamente pelo quebra jejum. A derradeira partida de desempate ficou para uma próxima oportunidade (afinal, Flubber leva quase cinco minutos para pensar cada jogada).

Quebrada a concentração dos bravos praticantes do jogo de tabuleiro, os assuntos variavam. Partiam da força popular no exercício de seu poder de influência ao grave julgo que representam os sentimentos instintivos para a boa interação social, do esforço humano em manter sua delicada onipotência sobre a natureza ao local onde realizar o lanche. Dentre todos os assuntos discutidos, o único que obteve alguma solução era o que tratava sobre o que comer. Bolachas doces para uma longa conversa na praça pareciam atraentes. Na famosa "praça do relógio" (nome popular para a praça cujo nome sempre esqueço de pesquisar por pura preguiça), a conversa tomou o rumo mais pessoal. Ali, os amigos conversam sobre suas questões pessoais (e sobre sexo, inevitavelmente). A vida assume um aspecto difícil de entender quando visto de olhos externos. Comentários como "Ele não pode casar, isso não se faz", quando tratando de um ex namorado, leva a imaginação do interlocutor a extremos, desde a preocupação da amiga com o compromisso prematuro de seu ex companheiro até o ciúme tradicional da ex namorada. Como ela certamente lerá esse texto, não direi qual das opções, ao meu ver, melhor corresponde à situação (não vou dizer que eu tenho certeza que é a segunda opção). As atuais companheiras dos rapazes por ela citados também receberam sua parcela de atenção ("ui, ele chama ela de bebê! Que nojo! Tudo bem ser fofo com a namorada... mas pô, bebê? Ele não precisa chamar assim!"). Obviamente Flubber citou fatos com ele decorridos, mas como o blog pertence a ele, ele tem a opção de não citá-los. Reclamações podem ser encaminhadas nos comentários do blog com remetente para a resposta (que algum dia será enviada caso os correios, o governo, o clima e a minha disposição colaborarem).

Nova caminhada sem destino e nova discussão inflamada sobre o lugar do próximo lanche e fomos a uma lanchonete (dessas franquias bonitas e coloridas que esquecem de limpar a mesa antes de servir, demoram para atender e cobram dez por cento pelo atendimento). Esfirras, um pastel, um suco de manga e um salgado cujo nome esqueci (mas tinha queijo cremoso... hummm). E, obviamente, novas conversas sobre ex namorados (as) (e o sexo rodeia o mundo afinal, inclusive as conversas com os amigos fofos). Obviamente quem mais sofre novamente é a atual de algum ex ("Ela tem uma foto no orkut comendo churros... que gorda ela!") e com certeza comentários a respeito de assuntos de Flubber (vale a mesma máxima anteriormente citada). Paga a conta e perdido algum tempo à mesa ("Eu acho um absurdo os dez por cento"), a dupla estava pronta para outra caminhada. Pouco originais, retornaram à Rua XV de Novembro para mais divagações ("Quantos emos! Tá me dando coceira" "Ai, Flubber, que horror! Não fala assim!") e para a espera do famoso maracatu da universidade (que não apareceu, talvez por atraso nosso, talvez pela procrastinação, a constante influência da popular "vadiagem"). Cansados da espera (e Flubber cansado de ver emos), resolveram que era hora de retomar a estrada, afinal, as beiradas dos pequenos cercados de flores não é muito anatômica para ser usada como banco. "Um capuccino?", e Flubber reflete que talvez nem tudo no mundo gire em torno de sexo afinal. (Eu ganhei chocolate *.*)

Ao café, um bom e velho capuccino rega outra fervorosa conversa sobre a vida alheia ("Ah, ele era loiro, alto, de olhos verdes e fazia física... mas pode parar de se achar, Flubber, não é você" "Ué, porque eu acharia que era eu? *sorriso desaparecendo*"). Mais alguns minutos de conversa, outra conta paga e novamente pé na estrada, dessa vez um ônibus com destino bem definido (ao contrário das caminhadas anteriores). Ao terminal do Cabral, a despedida, e Flubber volta para seu lar (carregado de bombons que o conferiam um sorriso incomum). Agora um banho para eliminar o cheiro de cigarro e a esperança de que De Souza não o mate pelo conto (nem venha com a péssima notícia de que seu nome não é De Souza... Flubber, Flubber, troque de cérebro).