domingo, 27 de novembro de 2011

Ensaio sobre o tédio

O estresse é um momento interessante na vida do homem. Dizem que o excesso de preocupação estimula o processo criativo e facilita a produção cultural de muitas formas. Talvez isso explique como certas figuras notórias da poesia, dramaturgia, ciência e música lançaram suas obras primas em seus momentos mais decadentes enquanto seres humanos. Shakespeare, Bethoven e Newton poderiam ser os exemplos mais óbvios e clichês.

Mas o que dizer do tédio? O tédio é a falta do que ocupar a cabeça, se não estou muito enganado, o que o classifica como o oposto do estresse. De alguma forma bizarra, o tédio é responsável por muitas atitudes e produções muito menos sensatas que as grandes peças de teatro, concertos ou teorias de ciência natural.

Vou exemplificar: foi certamente em um momento de estresse que Einstein teve a luz de imaginar que o campo magnético nada mais é que um campo elétrico visto de outro referencial (iniciando o processo que levou à relatividade). Por outro lado, foi certamente em um momento de tédio que alguém pensou que um som muito alto no carro faria os vizinhos quererem ser seus amigos. Foi provavelmente o estresse que motivou Picasso a rabiscar sua genialidade e provavelmente o tédio que fez com que o primeiro indivíduo tivesse a idéia de ouvir música sem fone de ouvido no ônibus coletivo.

O tédio leva o indivíduo a buscar qualquer coisa que ocupe sua cabeça, e isso tende a levar aos jogos ou ao desastre. Ou a ambos. O tédio e a iniciativa se combinam de forma bizarra.

Mas o nível de tédio que quero relatar aqui transcende todas as espectativas de qualquer pessoa, até das mais criativas. Imagine pois que você está dominado por um nível de tédio equivalente a estar no vazio há uma eternidade, sem mesmo um lugar onde prender os olhos. Agora imagine que você tem a capacidade de fazer o que quiser, ao limite de sua criatividade. Some os fatores e você chegou ao local de onde o tédio não seria capaz de passar: você criou o mundo.

Sempre me questionei o que levaria alguém a passar 6 dias criando um mundo. Ouvi muitos argumentos, todos muito trabalhados, nenhum muito conclusivo. Mas todos sugeriam dois motivadores comuns: narcisismo e tédio.

Então assim começa uma história: eu, tomado por meu tédio, crio um mundo. Ainda não satisfeito com o mundo, resolvo povoá-lo com alguém capaz de dizer algo além de alguns grunhidos naturais. E assim faço o animal homem.

Existem teóricos da teologia que sugerem que um deus todo poderoso seria capaz de prever tudo o que vai acontecer, uma vez que o mundo segue os trilhos por ele definidos. Conhecendo o mundo o quanto eu conheço e as coisas pelas quais os animais humanos costumam passar me questionei por muito tempo o que faria o mundo ser criado em primeiro lugar, especialmente por alguém que sabe tudo que vai acontecer. Para isso também ouvi muitas respostas trabalhadas. Já ouvi coisas como "porque queria companheiros", "para louvor de sua glória", entre outros. Enfim, tédio e narcisismo.

Há quem questione que lançar um companheiro recém criado em um mundo onde os outros companheiros o tratarão como lixo seria uma tremenda sacanagem, então argumenta-se que o mundo é o caminho para mostrar quem é um companheiro digno do criador e quem não é. Não questionarei por que afinal o criador não faz apenas pessoas dignas para ele e as permite pular a provação.

Assim foi feito o mundo e povoado por um animal inteligente de índole heterogênea que se auto destrói. Mata seus semelhantes, não chega a qualquer conclusão sobre de onde veio e para onde vai. Seguindo a lógica que compara o tédio e o estresse, me parece sim uma obra de alguém entediado. Mal sabe esse mal criado animal que é fruto da criatividade entediada de alguém com muito poder e pouco a fazer.

No final das contas tudo faz sentido se você retornar ao incício da reflexão: não tem nada aqui, não tenho o que fazer, sequer tenho o que observar. Vou fazer um mundo e ver no que dá. Just out of boredom. O deslize de alguém tomado pelo tédio, sem sequer um sudoku para passar o tempo. Se Deus estivesse estressado no momento da criação, é possível que estivéssemos hoje vivendo a utopia e tivéssemos poderes sobrenaturais e asas. Pena que as coisas não aconteceram assim.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Conto de fadas

Era uma vez uma vila como qualquer outra, sem nada especial e sem ninguém notório. Próxima a essa vila jazia quase imperceptível em meio ao mato não arrancado uma casa, um dia pertencente a uma adorável velhinha.

Dois caminhos ligavam a vila à humilde casa, um longo e um curto. O curto, embora tendo metade da extensão do outro, era morada de um certo lobo trans sexual mal intencionado com um apetite voraz por velhinhas e moças de chapéus vermelhos. Embora sua estranha preferência pudesse servir de alento a alguns, os mais cautelosos evitavam esse trajeto por garantia.

Diz um antigo conto entre os vilões que certa feita, chapeuzinho vermelho pretendia visitar sua avó, que por coincidência era a simpática velha da casinha. Descuidada, a moça, cujo nome sugere que ela utilizava o adereço tão apreciado pelo canino, decidiu por tomar o caminho mais curto, ignorando os avisos de sua mãe de que deixaria de pagar seus estudos se andasse por aquelas bandas, pois aquele caminho era reservado para os de índole duvidosa.

Por fim, o destino da pobre donzela é até hoje discutido na vila com entusiasmo nas rodas e nos bares, onde o velhinho saudoso conta sobre seu avô caçador que matou o lobo e resgatou de sua barriga tanto moça (com chapéu) e velhinha (cujas roupas vestiam o animal - tente não imaginar em que condições ela saiu); o cético bêbado discute que a garganta do lobo não permitiria que ele comesse duas pessoas sem mastigar e algum babaca que já bebeu muito mais que é de bom tom faz ameaças de denunciar o falecido avô do velhinho ao IBAMA, acreditando estar sendo engraçado. Quando percebe que ninguém riu, inventa alguma frase de duplo sentido entre a espingarda do caçador e o gorro de chapeuzinho vermelho. Quando nota que não agradou mesmo assim, começa a chorar o término de seu namoro.

O lobo está devidamente morto, independente da versão verdadeira da história antiga. Mesmo assim, por precaução, uma fita zebrada foi passada para fechar o caminho e impedir que outros sigam por aquele trajeto de lobos comedores de mocinhas inocentes. Não que houvesse chance de ocorrerem novos ataques, poucos se preocupavam de verdade com isso. A reputação do caminho era ruim, coisa de moças de chapéu vermelho sem consideração pela família e pelas tradições de seguir o caminho certo.

Talvez o lobo nunca tenha existido de verdade, mas não faz diferença. De vez em quando, alguns curiosos passam escondidos pela fita zebrada, sem o conhecimento de suas famílias. Outros acharam o caminho divertido e para lá seguiam para suas noites de diversão. Notando que nada demais havia naquele trajeto, decidiram questionar com as autoridades de sua cidade o que havia de errado por ali.

As respostas costumavam ser sempre as mesmas: "O caminho certo é o longo, e sem mais perguntas.", "Deus fez o caminho longo para nós e o curto para os ímpios", "As folhas são verdes demais" e "Ê, rapaz, eu não sabia que você gostava dessas coisas não". Assim foi até o dia que alguém exigiu seus direitos de seguir o caminho que quisesse sem ser julgado por isso.

Começou com um ato simbólico: o prefeito mandou alguém colocar um galho em pé no chão segurando a fita para cima, representando a posição da prefeitura de nunca ter proibido a passagem. A fita ficou por ali, afinal ela nunca incomodou ninguém e haviam já 2 gerações que estava lá, amarela e preta e dizendo que ali não era um bom lugar.

Maliciosos, Bullies se posicionaram nas duas saídas do caminho e esperavam os que por ali se divertiam aparecerem para apontar e rir. Outros mais radicais carregavam barras de metal e pedaços de pau consigo e batiam naqueles que eram estranhos demais para andar pelo caminho certo.

Algum dia, um novo prefeito decidiu que aquilo estava passando dos limites (primeiro porque não se faz isso com uma pessoa e segundo porque não havia mesmo nada errado por ali - mas as más línguas ainda dizem que ele se esgueirava por ali depois que sua esposa dormia). Deixou bem claro perante a cidade que não gostava do caminho, mas que quem quisesse andar por ele deveria ser deixado em paz para seguir o caminho que quisesse.

Assim, como novo ato simbólico, ordenou que um moleque de 12 anos chutasse o galho (para descobrir que alguém já tinha feito isso há muito tempo) e deu a um dos usuários do caminho uma tesoura e uma máquina fotográfica para que ele e seus amiguinhos cortassem a fita e publicassem o ato num jornal local.

Os bullies naturalmente não pararam. A fita foi cortada, é claro, mas os pedaços de pau dos bullies não perdiam seu desempenho por isso. Injuriados, os usuários do caminho decidiram se entregar à sociedade. Diziam "Eu ando por ali sim e ninguém tem nada com isso", organizaram passeatas do "Orgulho do Caminho Mais Curto", criaram comunidades no Orkut e pediram para que fosse aprovado um projeto de lei que criminalizasse as pauladas.

Esclareço aqui que as pauladas sempre foram crime, independente do caminho ser bom ou não. O que era necessário era uma manifestação da justiça no sentido de dar uma atenção especial a quem gostava do caminho mais curto. Em breve, dezenas de pessoas passaram a ignorar a repressão de suas famílias e o preconceito dos amigos e passaram a frequentar aquele caminho.

Os bullies foram presos e as pessoas foram incentivadas a aceitarem os frequentadores do caminho mais curto. A história da Chapeuzinho Vermelho tornou-se um tabu e o velhinho foi processado por sugerir que algum dia um lobo andou por ali, afinal tal afirmação serve para recriminar os frequentadores do caminho. O velhinho argumentava dizendo que não falou nada sobre quem anda por ali, apenas uma história antiga, mas foi mandado à prisão de qualquer forma. Os livros didáticos deveriam excluir alusões e piadas sobre caminhos mais curtos, e quem fizesse um trocadilho envolvendo caminhos curtos e lobos estava passivo de processo por preconceito.

  
Em poucos anos, não havia mais mato no caminho mais curto. A casa ao final foi derrubada porque era considerada muito retrô, e se você mencionar que por qualquer motivo acha que há uma árvore no caminho mais comprido mais bonita que outra do caminho mais curto pode ter o mesmo destino do velhinho.

Todas essas mudanças são vitais e bem vistas pelos famosos da vila, em nome da manutenção da democracia e da liberdade de expressão, e se você discorda disso deve ser apedrejado em praça pública por ser um porco preconceituoso. 

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Sobre action figures e o fim do mundo

Conforme o tempo passa, a lógica do convívio social muda.

É interessante notar, por exemplo, o quanto os hábitos de vestimentas mudaram da idade moderna para cá. Antes, os ternos eram a roupa de passeio, o trajamento utilizado para qualquer situação que lhe retirasse do aconchego do lar: desde o encontro com os pais da namorada até a solução do pequeno impasse com seu vizinho. Por sinal, o impasse com seu vizinho, hoje resolvido com alguma gritaria ou o chamado da polícia, antigamente era resolvido com dez passos de distância e um único tiro. Alguns consideram que evoluímos, outros não têm tanta certeza.

Hoje evitamos o terno. Por sinal, poucos conhecem o termo "Traje de passeio", e se referem ao trajamento como "roupa social", já que ele agora serve para ocasiões especiais, como casamentos. Você não acerta as contas com seu vizinho usando um terno; em geral as pessoas preferem fazer isso de bermuda e chinelo, e ao invés de um tiro algumas bordoadas passam o recado. E seu sogro e sogra te consideram bem vestido se ao primeiro encontro você utilizar uma calça jeans, um tênis limpo e uma camiseta que não mostre uma folha de maconha. 

Mas as roupas não foram as maiores mudanças. O vocabulário sofreu distorções muito mais absurdas, e esse com certeza é o que muda com maior frequência. Expressões hoje comuns ao seu meio serão consideradas caretas em menos de dois anos. "Massa", uma gíria comum à minha infância, é careta. "Bacana" é um bocado careta, e "Careta" é extremamente careta.

Seu gosto musical será considerado arcaico dentro de uns quinze anos. Aliás, se você tem algum gosto musical provavelmente ficará chocado com as mudanças no gosto musical da maioria dentro de poucos anos e passará o resto de sua vida dizendo o quanto as músicas eram melhores no seu tempo, do mesmo jeito que seu pai faz com frequência. Temos certa resistência a mudanças.

No tempo citado dos ternos e duelos, homens economizavam por anos para comprar uma bengala de qualidade para ressaltar seu bom gosto e elegância, mesmo que isso significasse não mobiliar a casa. Há décadas, o maior gasto era com o terno vindo do bom alfaiate, a roupa que serviria como seu cartão de visitas por onde quer que fosse, e sua família não pouparia esforços para te ver bem vestido e, assim, se orgulhar. Hoje, de alguma forma bizarra, o status de alguns é definido por aparelhos de telefone celular que algum comerciante brasileiro apelidou MPx (substitua 'x' por algum número que satisfaça sua imaginação), vendidos em dez parcelas sem juros pelas casas Bahia e postos para tocar música de gosto duvidoso sem fones de ouvido no ônibus coletivo, almas caridosas ansiosas por compartilhar suas músicas gratuitamente com desconhecidos que estão indo trabalhar e anseiam desesperadamente pela chance de ouvir seu funk ou seu techno.

Tenho minha própria resistência a mudanças. Não gosto muito dos hábitos dos mais jovens de utilizar calças cuja cintura chega no joelho, rejeito com meu coração as franjas com chapinha do público juvenil de sexo dúbio e, com minha alma, reservo meus mais otimistas e sinceros votos aos proprietários dos MPx que ouvem música sem fone de ouvido no ônibus que tenham uma morte lenta por asfixia de desodorante Axe.

Talvez seja por isso que minha alma tem tamanha dificuldade em aceitar como vindos de mentes racionais certos conceitos que hoje são tão bem aceitos na grande massa. Por exemplo, eu poderia questionar "Que raios significa aquela máscara da Lady Gaga?", "Who tha fuck is Justin Bieber?" ou "O que aconteceu com o elástico das suas calças?". Mas ao invés disso, há outra questão que tem me tirado o sono e que gostaria de trazer à reflexão: Que diabos é a porra do "Orgulho Nerd"?

Sempre fui considerado nerd. Em minha infância, isso tinha um motivo muito bem definido, e envolvia meu hábito de jogar video game, tirar notas altas no colégio e não saber conversar com mulheres. Eu era chamado "nerd" por meus colegas não irem com a minha cara e gostarem de me ver irritado, simples assim. Um termo pejorativo, nascido para insultar e que eu rejeitava com todas as forças.

Hoje, me explique quem puder, algum rapaz coloca uma camiseta do Senhor dos Anéis, decora falas de Darth Vader e lê a obra de C.S. Lewis e, na mesa com os priminhos mais novos, bate no peito dizendo "sou nerd", como quem quer dar um bom exemplo de conduta aos seus aprendizes.

Não nego que não vou com a cara do povo que aderiu a essa onda que acha cult ser nerd, o que os encaixaria em minha definição anterior, mas acredito que alguma distorção dolorosa aconteceu por aqui. Em certa situação, fui questionado "Você não viu toda a série do Star Wars? Que tipo de nerd é você?".

Tal questionamento poderia levantar uma reflexão por si só. No momento, me limitei a responder "Do tipo que apanhou dos colegas na infância, ganhou o primeiro video game aos 2 anos e arrumou seu computador pelo telefone". A resposta satisfez e minha "imagem" como "nerd" foi preservada. Mas o questionamento permaneceu o mesmo.

Sou considerado um nerd, e explico que não é por meu gosto por RPG. Não tem a ver precisamente com o fato de preferir Linux a Windows ou por ter escolhido Física como minha graduação. Sou nerd desde infância por minha inaptidão ao convívio social. E talvez novamente por meu conservadorismo, nunca considerei minha dificuldade em conversar com meus vizinhos um motivo de orgulho.

Mas novamente, isso é uma questão minha, meu conservadorismo maltratando minha capacidade de aceitar certas mudanças sociais. Talvez seja apenas a idade manifestando seus sintomas. Talvez seja apenas uma mudança natural no significado da palavra "nerd" ou alguma estratégia de marketing muito inteligente.

Por fim, o fato é que sou um nerd. Da mesma forma que isso não fará você necessariamente gostar de mim, saiba que isso não me faria necessariamente gostar de você. E se você é fisiologicamente definido como um ser humano do sexo masculino e, por qualquer motivo, usa franja preta passada no ferro (a conhecida de toda mulher, a "chapinha"), a alcunha adequada não é "nerd, e sim "emo".

Antes que eu comece a falar sobre a mudança pela qual os emos passaram (de criaturas tristes que achavam cult cortar os pulsos, transformados em criaturas coloridas que acham cult falar como se tivessem alguma deficiência mental muito séria), encerrarei o texto por aqui. E se você tem um MPx, compre um fone de ouvido. Você descobrirá entre as vantagens o fato de o fone de ouvido emitir um som de muito maior qualidade e definição que o auto falante de seu celular, e eu usufruirei da outra grande vantagem: o fato de não precisar ouvir sua música.

Caso contrário, sonhe com frascos de Axe acoplados a um inalador.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Concerto cotidiano: rock das ruas curitibanas

Algumas pessoas dizem que certas músicas lembram certos momentos da vida. Talvez o fato da música ter sido ouvida repetidamente em algum momento específico faça com que a pessoa retome aquele momento maravilhoso com suas sensações, como o êxtase do primeiro beijo para os românticos que ouvem a música do casal, a fossa do fim de namoro para os deprimidos e bipolares que ouvem música de corno ou a emoção do começo de um "novo" episódio do Dragon Ball para os piás de prédio que ouvem aquela porcaria de música de entrada. Os artistas vão além e sugerem que momentos sugerem músicas e trazem a inspiração necessária à composição.

Não sou um artista. Talvez dos três grupos citados há pouco, posso me considerar como membro de todos. Apesar disso, há momentos que me sugerem músicas. Não as músicas inteiras, mas pelo menos os títulos.

E foi esse sábado um daqueles dias de inspiração. Vários momentos renderiam músicas incríveis baseadas no teatro cotidiano, e vários estilos diferentes podem ser destacados ali no meio. Nomes em inglês, apenas porque em português eles perdem a cara de nome de música (afinal, estamos habituados a ver nomes horríveis de música em inglês apenas).

O concerto poderia começar com o estilo punk. A música "Keep your flags up" traria o tempero patriota para falar sobre as pessoas balançando bandeiras com dizeres "Vote XX, Fulano de Tal" pelas ruas, num som que dá vontade de dar pulinhos e que, curiosamente, não te dá vontade de votar em ninguém. Músicas mais pesadas poderiam seguir, como a "I don't like you", uma música mais pesada e de ritmo mais rápido, com ênfase na bateria (Que curiosamente lembra um concerto de latas de lixo viradas de ponta cabeça sendo tocadas por trolls equipados com troncos de árvores) e falaria sobre uma temática mais curitibana, como o agradável hábito das pessoas não te responderem quando você dá bom dia.

Com o estilo aos poucos abandona o punk e parte para um instrumental gradativamente mais pesado, aos poucos nos aventuramos no ambiente do thrash metal e passamos a sacudir nossas cabeças enquanto uma pessoa nos insulta no palco. "Bruised" daria início a uma reflexão sobre a inabilidade de certos motoristas a estacionar nas vagas a eles disponíveis. "Stay away from me" retrata os desejos desesperados daqueles que são abordados por religiosos na rua e não estão interessados no algodão sagrado benzido no óleo de jerusalém (que por algum motivo não explicado te trará dinheiro e é de graça - afinal eles não estão interessados no seu dinheiro).

O concerto quebra o clima para partir ao power metal melódico. É necessário quebrar o clima ao invés de partir aos poucos na direção do estilo, uma vez que power metal melódico não combina com porra nenhuma. Mas as temáticas medievais comuns a esse estilo muito lembram o convívio das grandes cidades. "Living by the blade" falaria sobre a luta cotidiana do trombadinha que, cansado do discurso de que "poderia tá robanu, poderia tá matanu, mas tá pedinu", decidiu por assumir uma atitude decidida e honrosamente batalhar por seu sustento. Batalhar no sentido literal, afirmando que está "robanu e é melhor cê dá a grana ou ele vai tá te matanu", então ele corre em perseguições em meio à cidade fugindo da próxima música: "Knights of Justice" que fala da polícia muito interessada em resolver os problemas da população humilde.

E o concerto, para voltar a ter alguma música, quebra novamente o clima abandonando o power metal. Por conveniência, termina com músicas de prog metal. "Curitiban Skies" iniciaria falando sobre o belo céu que banha os curitibanos com seu nobre tom cinzento, alimentando os desejos europeus desses cidadãos de bem de permanecerem em suas casas sem falar com ninguém. "Dilma in the rain" falaria sobre o cartaz político abandonado à chuva. Para finalizar o concerto, "No Yellows on Horizon", uma música de 25 minutos que trata em tempo real dos pensamentos turbulentos da pobre mente abandonada ao relento da espera do ônibus Vila Rex, com solos de guitarra escritos em partitura e viradas de bateria que estarão ali pra encher linguiça e manter o tempo longo e te lembrar o quanto esses músicos são foda e o quanto você não se parece com eles.

Após o concerto, o curitibano continua olhando para um ponto fixo para não precisar encara ninguém à sua volta.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Campus Jardim Botânico

Já foi mencionada nesse mesmo blog a tendência natural dos feitos animais (e consequentemente os humanos) a convergirem no sexo. A reprodução é um dos pré requisitos fundamentais para que uma espécie sobreviva à seleção natural, reprodução sexuada resulta em muitas combinações genéticas que favorecem a evolução, etc, esses seriam vários pontos que poderiam ser ressaltados a respeito de tal atitude que certamente favoreceu a permanência de alguns animais pouco lógicos (como os humanos).

Mas ainda falando sobre o curioso animal "humano", talvez uma observação bastante interessante a se fazer no que diz respeito a hábitos sexuais é o comportamento dessas criaturas em situações extremas de abstinência sexual.

Apesar da tendência a se trazer à tona certos hábitos sociais de alguns indivíduos em evidenciar a desconhecidos seus intuitos ou observações sexuais ("vem cá, gostosa!" entre outros), o que vale ser ressaltado nesse conto em particular são as consequências de tal situação no humor e nos anseios cruéis de alguns.

Talvez tenha sido por iniciativa procedente de um anseio cruel, por sua vez procedente do gosto por violar hábitos de sono alheios, que se convocou através de um aviso um grupo de alunos (entre eles Flubber®) a uma reunião em uma manhã de sábado. Seja qual for a origem desse impulso, a pessoa que marca uma reunião em uma manhã de sábado não faz sexo. Pelo menos não com a frequência que deseja. Especialmente com os convocados a acordar cedo no sábado.

E lá estavam todos sentados em bancos de acentos confortavelmente inclinados na direção errada, se apoiando nas pernas para não escorregar ao chão (talvez uma técnica para manter as pessoas acordadas). Presentes estavam físicos, químicos, matemáticos, biólogos e humanos, todos nessa odisséia acadêmica assistindo a uma palestra à qual foram convidados a comparecer obrigatoriamente. Em um momento específico, alguns professores foram convidados a se dirigirem ao microfone para declarar alguns trabalhos de seus subprojetos, e foi nesse fatídico momento que se passou o inesperado.

Lá estava Flubber® assistindo às declarações de vários professores quando, por fim, decide levantar e tomar a palavra ao microfone. Os estudantes e professores dos demais cursos observavam sem muito interesse, afinal acreditavam ser um professor, mas os pobres alunos colegas de Física observavam atônitos ao avanço gradativo desse representante de sua classe, degrau a degrau, com destino à ruína da reputação de seu curso. Tomado o microfone, iniciou seu discurso. Dizia ele:

"O trabalho desse programa é realmente excelente e interessante por levar os estudantes a seu ambiente profissional e por incentivar a troca de conhecimentos entre o ambiente acadêmico e o ambiente escolar, e vai ficar melhor quando eu assumir como King size [1].  A primeira medida a ser tomada será a compra da Universidade Federal do Paraná e o investimento massivo nas bolsas do programa, que de quatrocentos reais passará a valer mil e duzentos reais." (nesse momento, professores se entreolhavam curiosos para entender o significado de tal petulância)

Assim que o discurso terminou, Flubber®, ovacionado por seus colegas de vários cursos, retomou seu lugar e um grupo de mafiosos chineses derrubou a porta para entrar. Muito tiros e pessoas mortas depois, Flubber®, após quebrar o braço de um deles e amarrar outro com uma alça de mochila a uma cadeira para que se segurasse com as pernas para não escorregar ao chão, correu à saída ouvindo tiros atrás de si e rolando para conseguir cobertura.

Esse é um daqueles momentos em que o leitor pergunta "Sério?" e eu respondo "Não". O fato é que Flubber® estava com sono demais para aquele momento fazer sentido e sua imaginação é a grande culpada por ter passado algum tempo rindo sozinho na cadeira enquanto professores falavam ao microfone. Se alguém deve ser culpado, esse é o sujeito que declarou o recebimento por sua família de um brasão King size por parte da corte portuguesa. E se ele quiser se manifestar a respeito do texto, encare como homenagem de alguém que apreciou os quase dois minutos de vídeo.

Referências
[1] Lima, Alexandre dos S. e Azarada, Repórter, King size - Entrevista sobre as Barcas no Rio de Janeiro, Youtube, 2009.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Recordações

Curiosa é a forma como os momentos ociosos terminam. O "Dicionário Informal" define "ócio" como "Tempo livre, vago / O não fazer nada / Preguiça / Vadiagem" (nesses mesmos termos, fonte e cores, o que talvez me sugira que eu deveria largar de preguiça e buscar por um dicionário em minha prateleira ao invés de pesquisar na rede mundial). Talvez boa parte dos sinônimos ali sugeridos não sejam condizentes com a condição do momento que desejo relatar, mas o fato é que o ônibus é um lugar propenso ao "não fazer nada". Curiosos são os momentos ociosos: poucos momentos são tão pouco produtivos e tão produtivos ao mesmo tempo. Sugeriu certa feita um professor doutor (doutor, doutor e doutor, pra ser mais preciso) de minha estimada universidade que uma instituição superior de ensino que promova pesquisa deveria prever um período no horário de seus docentes reservado exclusivamente para a reflexão, um forte indicativo de que aquilo que o dito dicionário da rede chamou de "vadiagem" é reconhecido por profissionais doutores (ou pelo menos um) como um período importante no processo de se trabalhar com o cérebro. O ócio é o momento em que o introspectivo está bem acompanhado, o louco fica mais louco, o hiperativo explode, Newton recebe maçãs na cabeça, Schrödinger ensaia requintes de crueldade com gatos e Capra enxerga átomos em estados caóticos sendo bombardeados por raios cósmicos e, de alguma forma, relembrando a dança de Shiva. Mas em geral, a maioria prefere apenas vadiar.

O ócio pode fazer tanto com que você surja com a idéia genial que te torne rico quanto te lançar fora do emprego e te deixar morando em baixo da ponte. Seja como for, o ócio é o momento da maior produção mental que o humano conhece. E foi em um momento de ócio como qualquer outro que fui levado a refletir (culpem o ócio por todos os meus textos nesse espaço). Não questiono a possibilidade do fato de eu estar dentro do Interbairros II no momento de tal reflexão ter influenciado de alguma forma as letras que logo vêm, mas qualquer momento de ócio pode produzir desde o mais sensato ao mais absurdo. Não, eu não estava chapado, antes que alguém se pergunte, estava apenas relembrando minha infância.

Ao ler tais palavras, os corações de certos leitores se recheiam do temor semelhante ao de uma pessoa que acaba de ver um acidente ocorrer diante de seus olhos. Porém, como em todo acidente, a maioria apenas está curiosa para ver os mortos e aglomera em torno da desgraça alheia até que venha alguém puxar o cordão de isolamento, então acredito que poucos pararão de ler ao saber que conhecerão algo de tão importante fase de meu desenvolvimento.

A minha infância foi quase a de um físico típico (daqueles que tiveram infância, que fique claro). Aos dois anos eu tinha meu video game, aos 5 destruí um carrinho de controle remoto para ver como funcionava, aos 10 fui proibido de tocar na máquina de lavar, aos 12 tive meu primeiro beijo, aos 16 o segundo, aos 17 entrei pro curso de Física, e aos 18 me arrependi disso. Nesses entre-meios, alguns fatos marcam a vida do potencial cientista. Retornei eu, naquele momento de ócio-reflexivo-recordativo-não-chapado-no-interbairros-II, a um período muito peculiar de minha formação básica: a sexta série do Ensino Fundamental (no sistema antigo de 8 séries anuais de ensino fundamental e três anos de ensino médio).

Recordo com algum saudosismo esse período ímpar. Nesse tempo eu ainda acreditava que tinha algum talento para o futebol. Eu era um dos nerds do colégio. Ao contrário da recente onda "nerd" que assaltou os ambientes adolescentes devido à propagação de certas propagandas geeks na rede, eu nunca fui nerd por opção. Ninguém me disse que video game era mais legal que andar de bicicleta, eu apenas aceitava isso com muita alegria. Ninguém me disse que perder o final de semana estudando linguagem C era mais divertido que passar uma tarde de sábado em um shopping repleto de seres humanos, eu apenas me aliviava em saber que eu poderia fingir que era para a faculdade. E no colégio a situação não era muito diferente: meus gostos sempre divergiram da maioria em uma série de aspectos. Apesar das diferenças gritantes, uma criança de sexta série ainda é uma criança de sexta série: eu gostava de fazer coisas idiotas, e a que conto a seguir foi uma delas.

Meu então professor de Geografia era admitido por um recente concurso para professores do estado. Aquele era seu primeiro ano lecionando na instituição, e já foi ele capaz de galgar alguns títulos entre os alunos: O primeiro, pelo impacto, como professor menos simpático; o segundo como professor gay. Antes que o movimento homossexual dirija algum processo em minha direção, gostaria que ficasse claro que não estou aqui ofendendo ninguém. Se em minha sexta série isso foi engraçado, gostaria de lembrar a todos que as leis que se levantam contra a homofobia ainda não vigoravam (aiai, eu to ficando velho) e que eu tinha 12 anos. O fato é que eu achava graça na dicção peculiar do professor, e não era o único.

Devido a uma longa sequência de demonstrações do merecimento de seu primeiro título, o professor de Geografia gerou uma série de piadas, referentes ou não ao segundo. Culminou que, naquela fatídica manhã, o professor passou como tarefa para a sala a resposta do questionário de certa página do livro didático. Não recordo a página, o dia da semana, que roupa eu usava, recordo sim o colega e amigo Polak sentado à minha direita dando risada enquanto eu escrevia minha resposta à questão de número um: "Explique o que provocou a queda da URSS". Como exímio ignorante dos fatores geopolíticos ensinados em sala e como bom preguiçoso, não me interessei em descobrir o que provocou tal evento histórico, nem mesmo o que era a tal URSS, então não perdi meu tempo caçando a resposta pelo livro e iniciei um momento de escrita daquilo que os alunos do ensino fundamental de meu tempo chamavam de "pura sacanagem". Não lembro se o dia fazia sol ou chuva, mas lembro a primeira frase de minha resposta, que teoricamente deveria constar apenas em meu caderno: "O imperador gay, (nome do professor), fez um manifesto para defender seus direitos homossexuais." Após várias linhas da mais pura diversão infantil (e de Polak estar controlando suas risadas), calhou que o professor passou olhando a resposta do colega, que estava em cima da mesa. Aquelas espiadas apenas para ver o quanto o aluno já escreveu. Só por curiosidade (interferência de Murphy), a minha resposta ele quis ler. Tomou-me a folha à mão e, com seus óculos na ponta do nariz, lia com um ar ríspido. Talvez não fosse assim tão ríspido, mas o prenúncio que aquela leitura me trazia não era agradável. Polak, como os bons amigos fazem nesses momentos, baixou sua cabeça e começou a rir histericamente. Ao notarem minhas transformações cromáticas ao período de silenciosa leitura do professor, a sala aos poucos foi também silenciando e o assistindo sem saber por que eu estava mudando de cor ou por que Polak não conseguia parar de rir.

Dez minutos depois, no recreio, os alunos não queria procurar os populares, as meninas bonitas, as bolas de futebol ou o lanche. Queriam, sim, saber da parte do nerd o que afinal trazia aquela folha em seu texto que provocou tão eufórica reação do profissional de educação que, sem explicar ao resto da turma o porquê, após a pergunta clichê "qual é o significado disso?", passou a proferir a quem quisesse ouvir algumas das implicações que poderiam proceder de minha atitude ao escrever isso de uma pessoa (implicações que passaram pelas "ocorrências", os documentos preferidos dos professores antipáticos, as "expulsões", os "processos", as "indenizações", as "prisões", o "mármore do inferno" e, de alguma forma curiosa, a "Pipoteca de vinte centavos da cantina" - não que ele falasse sobre isso no momento, mas eu estava com fome e faltava pouco para o recreio), em um tom que faz jus ao primeiro título.

No final das contas, talvez pelo professor ter um coração que não faz jus ao mesmo primeiro título, não precisei indenizar, ir preso, responder a processo, levar uma ocorrência pra casa, sair do colégio ou arder no dito mármore (apesar de ter comido da Pipoteca), apenas carreguei a bronca comigo como uma lição. Com o tempo a gente acaba percebendo que o professor não é necessariamente antipático, apenas não tinha ainda experiência para conquistar a turma e tendia a ser mais ríspido que o necessário para se fazer respeitar, o que, acredito, mudou com o tempo e com os anos seguintes. Mas a lição que aprendi foi valiosa: quando queremos falar de alguém pelas costas, devemos nos certificar de que o indivíduo esteja, de fato, de costas e a uma distância segura, e que a via por onde se dirige o insulto não seja de acesso comum entre você e a pessoa.

Sei também que caso o saudoso professor encontre esse espaço e o texto saberá que o texto fala sobre ele (e saberá quem é Flubber®), mas sabe que essas linhas não refletem ressentimentos nem dirigem insultos à sua pessoa ou trabalho.

Diferente do conflito intercultural narrado tempos atrás, essa história é verídica, mas sempre corro o risco de você, leitor, não acreditar. Caso você não acredite, não há problemas, uma vez que estamos ambos no ócio e você com certeza só leu até aqui para rir da desgraça alheia.

Terminada a reflexão e o saudosismo, volto ao mundo real e solicito ao ônibus a parada a tempo de descer no ponto correto.

domingo, 20 de junho de 2010

Correios... curiosos correios...

A dádiva da comunicação não é um privilégio humano. Já foi mencionado nesse mesmo blog o quão eficazes são os animais em demonstrar certas informações (como "estou com fome", "estou feliz", "você pisou no meu rabo, cacete", etc), e se me engano e não foi mencionado... sinto muito, não acho que cabe falar muito a esse respeito.

Apesar disso, os animais humanos se eximiram historicamente em desenvolver sua comunicação a níveis onde a eficácia não pode mais ser discutida. Desenvolveram uma linguagem falada, transformaram em escrita, criaram registros, inventaram formas de correio de informações, entre muitas outras aquisições respeitáveis. Com o passar dos tempos, deixou de ser um conforto e passou a ser uma necessidade, um aguardo ansioso. Uma demonstração da importância dada a certas informações foi a corrida de Pheidippides para anunciar a vitória na batalha de Marathona (logo após a corrida para pedir reforços a esparta), que terminou em sua morte por exaustão. Dito pelo não dito, a tragédia alheia inspirou as atuais maratonas, onde se colocam vários animais humanos a correr um trajeto sem algum objetivo aparente além de chegar antes do outro ao fim do percurso predeterminado, e sem mortes, o que tira metade da diversão. A veracidade da história pode ser questionada, os estudantes de História podem querer me lançar pedras pela história mal contada, o fato é que de lá pra cá a comunicação e seus meios sofreram certas distorções irreversíveis. Disserto a respeito.

O rádio pode ser um exemplo clássico. Quando no século XIX foi desenvolvido o primeiro sistema de transmissão de informações por ondas de rádio (dizem algumas más línguas que a invenção não é de fato de Tesla, mas foi a ele atribuída pois usava duas dezenas de patentes suas), não se tinha em mente alguns avanços que ocorreriam dali em diante. Da rádio transmissão à rádio comunicação utilizada em guerra, à rádio transmissão utilizada nas grandes cidades como mídia de alcance massivo e à sua avó sentada na cadeira de balanço ouvindo música sertaneja houveram alguns saltos tanto em conceitos tecnológicos quanto em conceitos comerciais. Seja como for, o inventor jamais imaginou sua criação transmitindo o Rebolation, o que poderia atribuir-lhe um fardo semelhante ao de Santos Dumont ao saber que sua invenção (questione a autoria quem quiser) fora usada como máquina de guerra, ou ao de Oppenheimer por presidir o projeto Manhattan e a criação da bomba atômica dos Estados Unidos (ele se arrependeu, pobre diabo, suas intenções certamente eram as melhores ao criar uma arma de destruição me massa de fissão nuclear).

Por fim, não pretendo me alongar a ponto de falar sobre o correio eletrônico e sobre os pseudo cartões virulentos de natal (em abril), sobre a televisão como maior meio de propaganda e entretenimento, a internet como maior meio de divulgação pornô, ou ao fato de estar o país sentado em frente a televisores assistindo outro evento mundial de grande importância (animais humanos com roupas coloridas correndo atrás de uma esfera de material dúbio e cheia de ar para lançá-la a uma rede) e Flubber® estar sentado em frente a um computador. Desejo me reter em um meio bastante rudimentar de comunicação, embora ainda muito útil: o correio.

O princípio do correio, creio, é bastante simples, embora sua organização não o seja: algum objeto precisa abandonar seu local de origem e atingir certo destinatário distante. O objeto pode variar de uma carta a um pacote com bactérias infecciosas, o fato é que virtualmente tudo que se deseja transferir de uma região a outra pode ser deslocado na medida do bom senso. E o bom senso de alguém me atingiu em cheio no meio do escalpo.

Certa feita, empresas de cartão de crédito concluíram que seria uma boa estratégia de marketing enviar cartões prontos e cadastrados por correio. Simples assim: seu cadastro é feito e dias depois você fica sabendo! Incrível, não? Com o passar de alguns anos, um certo serviço de defesa dos direitos dos consumidores (um órgão ainda tímido e em ascenção) concluiu que não era interessante ao consumidor ter seu cadastro efetuado sem sua permissão prévia, enquanto as mesmas empresas argumentavam dizendo que bastava o consumidor insatisfeito cancelar seu cadastro e não pagaria os boletos que não solicitou (um processo bastante simples que envolve uma ligação, uma meia hora de espera e uma taxa simbólica - afinal você está cancelando um serviço, antes não o tivesse assinado... opa, peraê... você não assinou?). O arremate do assunto foi que a prática foi por fim considerada ilegal, e as empresas passaram a ser obrigadas a solicitar a permissão das pessoas para fazer seus cadastros (maldade). Terminado esse assunto, apelaram para táticas de marketing mais tradicionais: fazer a proposta e tenta agradar o consumidor de alguma forma (que pode ser uma proposta a preços mais baixos ou até mesmo a omissão dos detalhes do contrato - afinal, o que os olhos não vêem, o coração não sente). Então elas passaram a pedir o telefone de seus potenciais consumidores às empresas de telefonia, e passou a ligar, tratando-os educadamente pelo nome e oferecendo serviços mal explicados.

Por fim, alguém concluiu que essa prática violava a privacidade das pessoas, que poderiam não se agradar de ter seu telefone divulgado a empresas que nada têm com elas. A partir daí, se a empresa deseja conquistar algum consumidor via telefone, precisa chutar números e fazer suas propostas a quem atende.

Por fim, toda essa coisa de telefone se relaciona no correio no ponto em que chegam à minha casa duas cartas endereçadas à minha pessoa. Não, eu não tenho um cadastro com a American Express, e muito menos com o Padre Hamilton José Naville, o fato é que eles me encaminharam, respectivamente, uma proposta de cadastro de cartão de crédito e uma medalha milagrosa. A proposta de cartão de crédito traz a oferta imperdível que, se você o utilizar a cada três meses, não paga a taxa de inatividade de trinta reais, além de alguns números de telefones e uma certa taxa de juros. O envelope da medalha milagrosa, por sua vez, traz um panfleto que diz "Medalha Milagrosa - um presente vindo do céu" (o que me sugere que recebi um fragmento de meteorito), além de uma carta com alguns dizeres sobre a importância da medalha, a vontade de deus na minha vida, uma assinatura digitalizada e uma lista de opções para resposta (que, resumidamente, em outras palavras, dizem "gostei de receber a medalha", "gostei muito de receber a medalha" e "gostei tanto de receber a medalha que vou te mandar dinheiro"). Desdobrando a carta, descubro um boleto bancário sem valor definido (basta enfrentar uma fila de banco e você pode fazer uma doação para agradecer pela medalha milagrosa).

Não quero recair no ponto das propostas e sugestões das cartas supracitadas (e ressalte-se aqui que "resumidamente", "ascenção", "cadastros", "avanços", entre outros, são sublinhados em vermelho pelo navegador como palavras desconhecidas e "Possíveis equívocos de linguagem", ao passo que "supracitada" é um verbete de uso bastante comum sendo, assim, uma palavra conhecida). Quero sim recair nas táticas de marketing utilizadas por essas pessoas (jurídica e, espero, física, respectivamente). Consulta-se um banco de dados e se recebe um nome completo associado a um endereço completo, então se faz uma proposta pessoal, educada e dirigida ao nome da pessoa, afinal, veja bem, não se pode passar o telefone das pessoas às empresas pois isso caracteriza uma quebra de privacidade. Por fim, concluo que, de acordo com certas lógicas, "tudo bem o sujeito saber onde eu moro, desde que não me ligue".

Tenho por convicções religiosas que não gosto de religião, não uso cartão de crédito e que adoro queijo. Tenho também por ideal que não dou meus dados a ninguém com quem não tenho negócios, pois valorizo meu espaço e minha privacidade. No final das contas, as correspondências que recebi ontem agridem duas de minhas três convicções religiosas e sugerem que em algum momento violei meu ideal. Caso a última afirmação seja falsa, alguém me fez o favor de violar meu ideal por mim, e ideal é como o ânus: cada um tem o seu, e a maioria não o quer violado.

Fecho esse conto das peripécias comunicativas humanas por aqui, sem conclusão mesmo, como de péssimo costume meu, apenas para sugerir a mensagem a quem a captou. De resto, espero que o jogo termine logo, pois meu gosto por fogos de artifício se limita aos de bela estética, e não aos de barulho interminável.