quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Recordações

Curiosa é a forma como os momentos ociosos terminam. O "Dicionário Informal" define "ócio" como "Tempo livre, vago / O não fazer nada / Preguiça / Vadiagem" (nesses mesmos termos, fonte e cores, o que talvez me sugira que eu deveria largar de preguiça e buscar por um dicionário em minha prateleira ao invés de pesquisar na rede mundial). Talvez boa parte dos sinônimos ali sugeridos não sejam condizentes com a condição do momento que desejo relatar, mas o fato é que o ônibus é um lugar propenso ao "não fazer nada". Curiosos são os momentos ociosos: poucos momentos são tão pouco produtivos e tão produtivos ao mesmo tempo. Sugeriu certa feita um professor doutor (doutor, doutor e doutor, pra ser mais preciso) de minha estimada universidade que uma instituição superior de ensino que promova pesquisa deveria prever um período no horário de seus docentes reservado exclusivamente para a reflexão, um forte indicativo de que aquilo que o dito dicionário da rede chamou de "vadiagem" é reconhecido por profissionais doutores (ou pelo menos um) como um período importante no processo de se trabalhar com o cérebro. O ócio é o momento em que o introspectivo está bem acompanhado, o louco fica mais louco, o hiperativo explode, Newton recebe maçãs na cabeça, Schrödinger ensaia requintes de crueldade com gatos e Capra enxerga átomos em estados caóticos sendo bombardeados por raios cósmicos e, de alguma forma, relembrando a dança de Shiva. Mas em geral, a maioria prefere apenas vadiar.

O ócio pode fazer tanto com que você surja com a idéia genial que te torne rico quanto te lançar fora do emprego e te deixar morando em baixo da ponte. Seja como for, o ócio é o momento da maior produção mental que o humano conhece. E foi em um momento de ócio como qualquer outro que fui levado a refletir (culpem o ócio por todos os meus textos nesse espaço). Não questiono a possibilidade do fato de eu estar dentro do Interbairros II no momento de tal reflexão ter influenciado de alguma forma as letras que logo vêm, mas qualquer momento de ócio pode produzir desde o mais sensato ao mais absurdo. Não, eu não estava chapado, antes que alguém se pergunte, estava apenas relembrando minha infância.

Ao ler tais palavras, os corações de certos leitores se recheiam do temor semelhante ao de uma pessoa que acaba de ver um acidente ocorrer diante de seus olhos. Porém, como em todo acidente, a maioria apenas está curiosa para ver os mortos e aglomera em torno da desgraça alheia até que venha alguém puxar o cordão de isolamento, então acredito que poucos pararão de ler ao saber que conhecerão algo de tão importante fase de meu desenvolvimento.

A minha infância foi quase a de um físico típico (daqueles que tiveram infância, que fique claro). Aos dois anos eu tinha meu video game, aos 5 destruí um carrinho de controle remoto para ver como funcionava, aos 10 fui proibido de tocar na máquina de lavar, aos 12 tive meu primeiro beijo, aos 16 o segundo, aos 17 entrei pro curso de Física, e aos 18 me arrependi disso. Nesses entre-meios, alguns fatos marcam a vida do potencial cientista. Retornei eu, naquele momento de ócio-reflexivo-recordativo-não-chapado-no-interbairros-II, a um período muito peculiar de minha formação básica: a sexta série do Ensino Fundamental (no sistema antigo de 8 séries anuais de ensino fundamental e três anos de ensino médio).

Recordo com algum saudosismo esse período ímpar. Nesse tempo eu ainda acreditava que tinha algum talento para o futebol. Eu era um dos nerds do colégio. Ao contrário da recente onda "nerd" que assaltou os ambientes adolescentes devido à propagação de certas propagandas geeks na rede, eu nunca fui nerd por opção. Ninguém me disse que video game era mais legal que andar de bicicleta, eu apenas aceitava isso com muita alegria. Ninguém me disse que perder o final de semana estudando linguagem C era mais divertido que passar uma tarde de sábado em um shopping repleto de seres humanos, eu apenas me aliviava em saber que eu poderia fingir que era para a faculdade. E no colégio a situação não era muito diferente: meus gostos sempre divergiram da maioria em uma série de aspectos. Apesar das diferenças gritantes, uma criança de sexta série ainda é uma criança de sexta série: eu gostava de fazer coisas idiotas, e a que conto a seguir foi uma delas.

Meu então professor de Geografia era admitido por um recente concurso para professores do estado. Aquele era seu primeiro ano lecionando na instituição, e já foi ele capaz de galgar alguns títulos entre os alunos: O primeiro, pelo impacto, como professor menos simpático; o segundo como professor gay. Antes que o movimento homossexual dirija algum processo em minha direção, gostaria que ficasse claro que não estou aqui ofendendo ninguém. Se em minha sexta série isso foi engraçado, gostaria de lembrar a todos que as leis que se levantam contra a homofobia ainda não vigoravam (aiai, eu to ficando velho) e que eu tinha 12 anos. O fato é que eu achava graça na dicção peculiar do professor, e não era o único.

Devido a uma longa sequência de demonstrações do merecimento de seu primeiro título, o professor de Geografia gerou uma série de piadas, referentes ou não ao segundo. Culminou que, naquela fatídica manhã, o professor passou como tarefa para a sala a resposta do questionário de certa página do livro didático. Não recordo a página, o dia da semana, que roupa eu usava, recordo sim o colega e amigo Polak sentado à minha direita dando risada enquanto eu escrevia minha resposta à questão de número um: "Explique o que provocou a queda da URSS". Como exímio ignorante dos fatores geopolíticos ensinados em sala e como bom preguiçoso, não me interessei em descobrir o que provocou tal evento histórico, nem mesmo o que era a tal URSS, então não perdi meu tempo caçando a resposta pelo livro e iniciei um momento de escrita daquilo que os alunos do ensino fundamental de meu tempo chamavam de "pura sacanagem". Não lembro se o dia fazia sol ou chuva, mas lembro a primeira frase de minha resposta, que teoricamente deveria constar apenas em meu caderno: "O imperador gay, (nome do professor), fez um manifesto para defender seus direitos homossexuais." Após várias linhas da mais pura diversão infantil (e de Polak estar controlando suas risadas), calhou que o professor passou olhando a resposta do colega, que estava em cima da mesa. Aquelas espiadas apenas para ver o quanto o aluno já escreveu. Só por curiosidade (interferência de Murphy), a minha resposta ele quis ler. Tomou-me a folha à mão e, com seus óculos na ponta do nariz, lia com um ar ríspido. Talvez não fosse assim tão ríspido, mas o prenúncio que aquela leitura me trazia não era agradável. Polak, como os bons amigos fazem nesses momentos, baixou sua cabeça e começou a rir histericamente. Ao notarem minhas transformações cromáticas ao período de silenciosa leitura do professor, a sala aos poucos foi também silenciando e o assistindo sem saber por que eu estava mudando de cor ou por que Polak não conseguia parar de rir.

Dez minutos depois, no recreio, os alunos não queria procurar os populares, as meninas bonitas, as bolas de futebol ou o lanche. Queriam, sim, saber da parte do nerd o que afinal trazia aquela folha em seu texto que provocou tão eufórica reação do profissional de educação que, sem explicar ao resto da turma o porquê, após a pergunta clichê "qual é o significado disso?", passou a proferir a quem quisesse ouvir algumas das implicações que poderiam proceder de minha atitude ao escrever isso de uma pessoa (implicações que passaram pelas "ocorrências", os documentos preferidos dos professores antipáticos, as "expulsões", os "processos", as "indenizações", as "prisões", o "mármore do inferno" e, de alguma forma curiosa, a "Pipoteca de vinte centavos da cantina" - não que ele falasse sobre isso no momento, mas eu estava com fome e faltava pouco para o recreio), em um tom que faz jus ao primeiro título.

No final das contas, talvez pelo professor ter um coração que não faz jus ao mesmo primeiro título, não precisei indenizar, ir preso, responder a processo, levar uma ocorrência pra casa, sair do colégio ou arder no dito mármore (apesar de ter comido da Pipoteca), apenas carreguei a bronca comigo como uma lição. Com o tempo a gente acaba percebendo que o professor não é necessariamente antipático, apenas não tinha ainda experiência para conquistar a turma e tendia a ser mais ríspido que o necessário para se fazer respeitar, o que, acredito, mudou com o tempo e com os anos seguintes. Mas a lição que aprendi foi valiosa: quando queremos falar de alguém pelas costas, devemos nos certificar de que o indivíduo esteja, de fato, de costas e a uma distância segura, e que a via por onde se dirige o insulto não seja de acesso comum entre você e a pessoa.

Sei também que caso o saudoso professor encontre esse espaço e o texto saberá que o texto fala sobre ele (e saberá quem é Flubber®), mas sabe que essas linhas não refletem ressentimentos nem dirigem insultos à sua pessoa ou trabalho.

Diferente do conflito intercultural narrado tempos atrás, essa história é verídica, mas sempre corro o risco de você, leitor, não acreditar. Caso você não acredite, não há problemas, uma vez que estamos ambos no ócio e você com certeza só leu até aqui para rir da desgraça alheia.

Terminada a reflexão e o saudosismo, volto ao mundo real e solicito ao ônibus a parada a tempo de descer no ponto correto.

3 comentários:

Nara disse...

*aponta e ri*

HUAHSUAHSUHAUSHUAHSUAHUSUAHSUHA

Bem feito.

Eu ficaria com vergonha, eu sei que você ficou, mas eu ficaria com vergonha pelo resto da vida.

Aline disse...

Boa namorada a sua... (boaa...)
rs, ashopaia rir assim de vc, sabe?
Mas eu adoreei a história, e também a lição aprendida com o fato... carregarei pra minha vida!
hahahahahaha...

Ana Elisa disse...

Eu li até o final só parar rir da sua desgraça.

E eu ri.

:P