quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Terminal do Pinheirinho

Assumo que estou impressionado. Costumo tratar a vida a sangue frio, levantar a sobrancelha esquerda (pois esqueci como se faz para levantar ambas simultaneamente) quando um fato extraordinário se exibe despudoradamente em frente aos meus inocentes olhos, mas, quando você dá de cara com a vida dançando com um guarda-chuva bege ao som de "My boy lollipop" com uma coreografia genérica que se pode, facilmente, encaixar na "Egüinha Pocotó", você pára para reavaliar seus valores e conceitos.

Não estou falando de um programa televisivo mau-humorístico escraxado e repleto de mulheres de grandes seios falando coisas sem sentido (com risadas programadas ao fundo), estou falando do pequeno-trágico-cômico drama da existência, o fundo do poço da sociedade pós moderna, o limite do sistema linfático, o fim da linha, a queda da ponte de Tacoma, o discúrso político inflamado em pról das comunidades carentes ("ahhh, como eu amo o meu povo que sofre). Enfim, estou falando de uma cena que vi esses dias. Não uma cena totalmente extraordinária, como o ônibus que patinou e atropelou o poste com a traseira ante-ontem, algo mais baixo, mais próximo dos pequenos dramas da classe média-baixa.

Direto às vias de fato: estava eu andando em companhia de meu caro amigo e colega de faculdade, Martynetz, à entrada do terminal do Pinheirinho. É impressionante a capacidade que um fato tem de terminar em outro: começou semanas antes inocentemente com uma catapulta, um mero lançador de projéteis, saíamos da oficina que nos foi oferecida de favor e andávamos a caminho do lar (cada um do seu, que fique claro). O homem se achega ao cobrador e se dirige dizendo coisas estranhas. Penso comigo mesmo "Nossa, um gringo por aqui" e reflito sobre a versatilidade do estrangeiro que pega ônibus dentro de nossa bela cidade apesar da bagunça (a mesma bagunça que posicionou o terminal do pinheirinho no Capão Raso e o do Capão Raso no Novo Mundo), quando noto que não se tratava de um estrangeiro, e sim de outro tipo de pessoa distante. As palavras que me faziam recordar o portanhol de Foz do Iguaçu eram, na verdade, frutos de uma língua enrolada, uma dificuldade de dicção muito comum entre nossos nobres camaradas que estão num estágio de ignorar nosso mundo para atentar ao mundo das maravilhas, esses que riem da simplicidade da vida e que choram do fundo da alma: os bêbados. O rapaz estava encachaçado, de caneco torto, mais pra lá do que pra cá, totalmente alcoolizado, dizendo um oi pra tia falecida, pensando em clamar pelo amigo Hugo. Ele deu o dinheiro dizendo palavras que o bebê diz quando está aprendendo a falar, aquele emaranhado de vogais e consoantes desconexas que, para ele, faziam todo o sentido. Recebeu seu troco e levantou a perna para dar um passo e, não me pergunte como, pareceu um efeito especial, ele chutou a catraca e fez com que ela girasse sozinha. Não foi um chute comum, não como a criança que dá seu primeiro chute na bola de futebol e cai pra trás, mas sim um chute com estilo: o bebum deu um legítimo RoundHouseKick digno de nosso saudoso e desaparecido Chuck Norris. Se tivesse parado por aí, tudo bem, até que seria uma situação incomum, mas se tornou completamente inusitada e fora do padrão aceitável: ele tentou passar da roleta em seguida, e notando que não conseguiria (percebendo também, note que sagaz, que o cobrador não pretendia apertar o botão novamente), estendeu suas duas mãos como quem pede água, mas certamente esperando seu dinheiro devolta. Não o culpo, já vi cenas mirabolantes vindas de ébrios sem dosagem do que bebem, já vi discussões alucinadas sobre sexualidade e política dignas de crônicas completas, discussões fervorosas com postes e placas, mas ainda não tinha visto tamanha façanha marcial. Ele chutou a catraca e pediu o dinheiro devolta, como o sábio Nazurujim que não pagou a coxinha que levava porque não a comeu. Fico imaginando se aquele chute não se tratava, na verdade, de algum tipo de demonstração de habilidade, como os antílopes se cabeceando impetuosamente para impressionar a fêmea, mas sem a parte da fêmea, mas não... era um belo e distinto feito etílico, uma cena condecorável e digna de ovacionações (como foi pelas risadas da dupla de físicos que ainda esperava a chance de atravessar a catraca). Um épico do corriqueiro.

3 comentários:

Fernanda disse...

Mew, sou tua fã !!!!!!!!!!!

Adorei seu jeito de escrever !!!

Beijãããããããoooooooooooooo semi !!!!

Fernanda disse...

Heheehehehe...fui a primeira !

André disse...

Escreves bem....jovem padawan :P
Analizando os fatos em relação Calouro/Veterano, percebo que talvez tenha feito um comentário infeliz na minha primeira linha.......

Mas agora "sério", mto loca a situação O.o e mto bem escrita xD estarei acompanhando o blog, realmente interessante

Abraçooooo